O verdadeiro brilho do Natal
por Marcelo Aramis | 18/12/2009 às 9:58
Na Vila dos Presépios, a luz desta época do ano é interior, espiritual e comunitária. E o encanto é natural
Ana Rech tem 40 mil habitantes. Só no centro da vila, são cerca de 20 mil. O número de trabalhadores na indústria superou o número de agricultores, mas ao bairro, que já desejou ser cidade, ainda cai bem o título de vila. Ana Rech conserva a marca da imigração italiana com as tradicionais casas de artesanato e restaurantes de culinária típica. Na Praça Pedavena, palco de encontros para o chimarrão de domingo, um presépio permanente mostra que a religiosidade também é valor cultivado por lá. E é no Natal que o bairro destaca o que mais o caracteriza como um vilarejo: o espírito comunitário.
Há 19 anos, por iniciativa da Sociedade Amigos de Ana Rech (Samar), a associação de bairro mais antiga de Caxias do Sul, com 60 anos de atividade, os moradores decidiram tornar pública a sua fé. Tiraram os presépios de dentro de casa e levaram para o jardim. A ideia agradou os visitantes e o Encanto de Natal cresceu. No último ano, mais de 150 mil pessoas prestigiaram o evento. Daniela Boff, presidente da Samar, conta que o que atrai os turistas é a espiritualidade que a vila exala nesta época. “Os turistas vêm para o Sul ver o Natal de Gramado e Canela, que é lindo. Eles passam por Ana Rech em busca de algo que nada tem a ver com o luxo. O que eles querem ver aqui é justamente a simplicidade.”
Foi nesse clima comunitário que, em 1979, um grupo de moradores da capela São Valentim constituiu a Associação Artística Sempre Amigos de Ana Rech. A capela – como é chamada uma localidade ao redor da igreja no interior – pertence a Flores da Cunha, mas a paróquia é de Ana Rech. Os jovens agricultores da comunidade se reuniam aos domingos em frente à igreja para se divertir. As brincadeiras de gata cega e jogo do lenço chegaram a virar grandes gincanas que atraíam os moradores das localidades vizinhas. Os mesmos jovens, dentre eles a massaiola Ivete Berti, 52 anos, eram responsáveis pela organização da liturgia nas missas. “Nós encenávamos o evangelho. Transcrevíamos o texto da Bíblia e adaptávamos para o teatro”, conta Ivete, uma das fundadoras e atual coordenadora do grupo. As esquetes tornaram-se tradicionais. Enrolado em lençóis, o grupo, que chegou a contar com 120 integrantes, recriava a história de São João e da Paixão de Cristo.
Há 10 anos, Ivete construiu um galpão no fundo do terreno. Espaço para jantares e outros eventos, o galpão ajuda a complementar a renda da família. Em época de apresentação, arredam-se as mesas e o local vira sede dos ensaios do grupo. Ivete é diretora, roteirista e um pouco mãe dos 60 integrantes da associação. O seu maior talento, no entanto, é a liderança. Quando o grupo começou a ser notado pela qualidade de suas apresentações, o elenco foi convidado a se apresentar no Encanto de Natal, em Ana Rech, e buscou aprimoramento. Eles participam de oficinas de teatro oferecidas pela prefeitura, tiveram aulas com artistas caxienses e o espetáculo já foi coordenado por diversas pessoas. Mas, durante as apresentações, é ao comando discreto de Ivete que os atores prestam atenção. “A gente já se conhece há muito tempo. Entendemos o que quer dizer cada gesto. A Ivete faz um sinal e a gente entra em cena mais seguro”, conta o agricultor Nadil Lidoni, 52 anos, que interpreta um dos pastores na encenação de Natal.
O talento do grupo expandiu as apresentações para além da liturgia. Hoje o elenco se desdobra entre as encenações religiosas, a participação no desfile temático da Festa da Uva e outros três espetáculos: O Banco, Donna Granda e A História de Ana Rech, que já foi apresentado nove vezes, sempre com casa lotada. “O grupo não é profissional do teatro”, Ivete faz questão de destacar, embora todos saibam que, pela experiência e pela qualidade que alcançaram em seus papéis, bem poderiam se considerar profissionais.
O José da encenação de Natal em Ana Rech é Jaime Rech, 52 anos, membro do grupo desde 79. Na casa onde mora com a mãe de 75 anos, em Santa Bárbara, ele expressa a fé em cada cômodo. Nas paredes, os quadros de santos e de Jesus Cristo se confundem com as próprias fotos de Jaime; sorrisos vestidos de José, na Sagrada Família, e sofrimento profundo no olhar, preso na cruz durante as encenações da Paixão. No seu espaço preferido da casa, Jaime construiu um verdadeiro altar, que gosta de chamar de “cantinho do amor”. Desde que se recuperou do coma causado pela intoxicação por agrotóxicos, há 15 anos, Jaime intensificou a religiosidade cultivada pelo pai, falecido em 81. “Tínhamos uma Bíblia em italiano. Meu pai era analfabeto. Então, nos contava as passagens do evangelho através das figuras. Depois, quando aprendi a ler, descobri que a história era mesmo como ele contava.”
Jaime vive com conforto, mas cultiva as coisas simples e exalta com orgulho a situação da pobreza de berço. Quando ele nasceu, o pai desmanchou um capote para agasalhá-lo. Há 19 anos como José na dramatização do nascimento de Jesus, ele experimenta o outro lado da mesma cena ao segurar o bebê envolto em trapos. Apesar de solteiro e sem filhos, tem jeito de pai e é um dos poucos Josés que carregam o Menino Jesus no Presépio Vivo – geralmente, esse ato é exclusivo de Maria. “Quando pego a criança no colo, sinto como se fosse meu filho. A emoção mais forte é quando apresento o bebê ao público. Naquele momento, é como se eu segurasse o próprio Cristo.”
Há um ano, depois de estar três vezes em coma e passar por nove internações hospitalares por causa de sequelas da intoxicação, Jaime desistiu do cultivo de parreiras. Hoje, divide seu tempo entre o trabalho na comunidade, que chama de família, e o início de um novo negócio. Inspirado no maior carpinteiro da História, ele abriu uma marcenaria. E se depender da seriedade com que encara o personagem, a empresa tem grandes chances de prosperar.
Atrás de um dos porta-retratos do Presépio Vivo, Jaime guarda uma foto e um bilhete especial, assinado pela marca de um pezinho: Com carinho, do Menino Jesus Henrique Kloss Conrado. Ao meu “papai” José (Jaime). O cartão é de 2006 e já faz tempo que Jaime não vê Henrique. “Sonho em reunir as 19 crianças que fizeram o papel de Menino Jesus. Hoje nem todos estão por aqui, e muitos devem ter tomados outros rumos. Seria uma emoção enorme reunir toda essa gurizada que, por um dia, foram meus filhos.”
“A emoção mais forte é quando apresento o bebê ao público. É como se eu segurasse o próprio Cristo”, descreve Jaime
Momentos antes da penúltima encenação de Natal na Praça Pedavena, o agricultor Nadil Lidoni, um dos pastores, tinha barro até as canelas. Não foi fácil pegar as ovelhas soltas no campo para figurarem no espetáculo. Vida de pastor é assim. Entre os cinco personagens que viveram o papel, Nadil era o que tinha a maior ovelha. Para descer a escada da praça, teve que carregá-la no colo. “Tem que ter jeito com o animal. No início as ovelhas ficam meio assustadas, mas é só você fazer um carinho que elas se acalmam”, ensina. Nadil está acostumado à vida no campo. Trabalha no cultivo da uva, cria porcos e galinhas. “Eu estou sempre com as unhas meio sujas. Sempre trabalhei na terra, é o que mais gosto de fazer.”
Nadil veio morar em Caxias em 1979 e logo ingressou no grupo Sempre Amigos. Antes, quando morava no Vale do Segredo, jamais havia experenciado a vida de ator. “Vim de Segredo para revelar um segredo aqui”, diverte-se. Na habilidade com o trabalho no campo, Nadil encontra a semelhança com o personagem de pastor. “Colocamos no personagem um pouco daquilo que a gente é. E o pastor é uma pessoa simples, age como servo e não como patrão. Ele cuida de um rebanho que não é seu, porque ele é parte desse rebanho”, filosofa.
Na juventude, Nadil passou três anos no seminário em Vacaria, onde era responsável pela horta e trabalhava com doentes e deficientes físicos. De tudo que aprendeu lá, relembra com carinho a profecia de Jango, o homem que cuidava da manutenção do seminário. “Aquele velho enxergava além de um palmo na frente do nariz. E o que ele me disse, eu guardo até hoje: Mesmo que tu não seja padre, tu ainda tem muita coisa boa pra fazer na vida”. Nadil acha que sua participação no teatro é uma maneira de fazer o bem e cumprir o destino previsto pelo velho Jango “enquanto Deus der vida e saúde”.
“O pastor é uma pessoa simples. Ele cuida de um rebanho que não é seu, porque é parte desse rebanho”, interpreta Nadil
Meia hora antes do espetáculo do presépio vivo, a administradora Daiana Carla Lovato, 26 anos, ainda não conhecia Augusto Tiago Zaparolli, um mês, que faria o papel de Menino Jesus. Daiana estava ansiosa para ver aquele que seria o seu 14º filho desde que viveu Maria pela primeira vez, aos 12 anos. “Normalmente os Meninos Jesus chegam mais cedo. A gente precisa conversar com os pais para saber como é a criança e o que é preciso fazer caso ela chore”, dizia, com preocupação maternal. Cinco minutos com Sheila Zaparolli, a mãe de Augusto, foram suficientes para Daniela sentir-se segura com o bebê. Em pouco tempo, ele acordaria para mamar. O colo de Maria poderia acalmar o choro e uma chupeta escondida na bolsa de José deveria funcionar em caso de emergência.
O Menino Jesus acordou logo no início da peça. Foi o Anjo Gabriel que o entregou nos braços da Virgem. Deitado na manjedoura, distraiu-se com as fitas e estrelas que crianças vestidas de anjo balançavam como móbile sobre o berço. Ao final do teatro, os personagens permaneceram em cena. O público foi convidado a subir ao palco para prestigiar a Sagrada Família. E Augusto chorou. Maria pegou o bebê no colo. Preocupado, José tirou a chupeta da bolsa. Maria fez que não com a cabeça, aninhou o bebê no colo, roçou seu rosto no dele, e Jesus cedeu à ternura da jovem.
Para Daiana, interpretar Maria há 14 anos é inspirador. “Quando visto aquele manto, me sinto uma pessoa mágica e especial.” Mais do que experiência, a habilidade de Daiana com bebês é instinto. A faculdade e os compromissos profissionais adiaram o desejo de ter um filho cedo. Se o novo plano der certo, Daiana dará à luz daqui a cinco anos, na época de Natal. “Penso muito nisso: encerrar minha participação no presépio de Ana Rech sendo a verdadeira mãe do Menino Jesus”, projeta Daiana.
Ao final do espetáculo, o calor dos holofotes havia secado as lágrimas contidas de José. Uma delas resistiu no canto do olho esquerdo. Refletia a luz amarela do palco, mas, ainda assim, não brilhava tanto quanto o olhar do personagem. Como não poderia ser diferente para um casal tão sintonizado em cena, Maria irradiava a mesma luminosidade. “A cada edição, é como se fosse a primeira”, emocionou-se Daiana.
“Penso muito nisso: encerrar minha participação no presépio de Ana Rech sendo a verdadeira mãe do Menino Jesus”, planeja Daiana
O brilho da Vila dos Presépios sobrevive aos blecautes. Mesmo depois da determinação da Rio Grande Energia em cortar a ligação de 180 presépios que funcionavam através da fotocélula nos postes de iluminação pública, a vila continua iluminada pelo espírito de Natal. Conforme Daniela Boff, presidente da Samar, a ligação nos postes era uma parceria entre a entidade, a RGE e o governo municipal. “Funcionou assim por 17 anos e agora foi cortado com a alegação de que a RGE não poderia se responsabilizar por acidentes causados por possíveis curto-circuitos ligados à iluminação pública”, explica. O presépio de Carmem Rech, na casa em frente à Praça Pedavena, está estampado em um dos selos que os Correios disponiblizam anualmente para cada Estado divulgar sua cultura e turismo. Os presépios de Ana Rech figuram em seis dos oito selos do Rio Grande do Sul. No entanto, os turistas que passarem pelo jardim de Carmem para ver um dos mais famosos presépios da vila encontrarão um estábulo coberto por um plástico preto, nenhuma luz acesa e uma faixa de protesto: RGE e Governo Municipal: que Deus lhes dê tudo em dobro. “Nós não gostamos de ver o presépio assim. Mas essa é a nossa forma de manifestar nosso descontentamento. Fomos injustamente tachados de ladrões de energia, mas ninguém aqui fez gato”, desabafa Carmem. Ela não aceita a justificativa da RGE, mas até concordaria com o corte se não tivesse ocorrido de forma abrupta. A iluminação do presépio no jardim de Carmem custou cerca de R$ 1 mil, e a família estaria disposta, caso fosse necessário, a gastar mais R$ 30 mensais para bancar a energia particular. “Não acenderemos uma luz até o Dia de Reis. Não é por economia, é por indignação com o corte violento da parceria.” Mas o apagão não esmaeceu o espírito de Natal da família e, do jardim para dentro, o brilho permanece o mesmo.
“Ou se consegue manter a simplicidade com que o Natal é feito aqui, ou se estanca o crescimento”, preocupa-se Daniela
O Encanto de Natal de Ana Rech é feito por pessoas que, em geral, trabalham voluntariamente. E a programação cresce e se profissionaliza a cada edição. A artesã Luciane Baggio Bacchi, 43 anos, participa da montagem do cenário para o nascimento de Jesus há 10 anos. O trabalho gratuito é também uma forma de mostrar o seu talento. “É uma oportunidade para expressar as ideias. Na loja, nesta época, a gente faz propaganda que vai dar retorno durante o ano inteiro”, afirma Luciane. Na frente da loja dela, na Praça Pedavena, Ronei Scopel faz pão no forno. “O pão tem um gosto diferente e dispensa mistura”, anuncia. A cada fornada, o cheiro do pão atrai uma fila de clientes. Quase ninguém consegue comprar na hora, mas eles fazem encomendas para a próxima remessa. Scopel atende na praça todos os finais de semana, de manhã e de tarde, sem parar ao meio-dia. Durante o Encanto de Natal, assa 10 fornadas – cerca de 250 pães – por dia. Se fizesse mais, venderia todos. Do outro lado da praça, na feira de artesanato, Karla Menegotto Todescato atende em uma banca de biscoitos. Ela representa a fábrica da mãe, localizada no distrito de Vila Oliva. A empresa, que faz biscoitos especiais para o Natal, já vendeu seus produtos nas festividades de Gramado, mas optou por manter a banca em Ana Rech. “Aqui se vende bem e se investe na divulgação do produto. Em Gramado, o investimento é alto e se vende tanto que não conseguimos fabricar o suficiente para atender o evento”, explica Karla.
O mesmo dilema vivido por Karla e Scopel – o limite para o crescimento – é um desafio para os organizadores do Encanto de Natal. “Ana Rech já não cabe em Ana Rech”, sintetiza Daniela Boff. Os problemas começam pela estrutura viária. Nesta época, no início da noite, os visitantes encaram engarrafamentos que chegam até o Château Lacave, na BR-116, a 4 km do centro da vila. Ana Rech também não tem hospedagem nem restaurantes suficientes para atender o número de visitantes que cresce a cada edição. Mas a falta de estrutura não é o que mais preocupa os organizadores. Ampliar o evento sem perder o espírito comunitário é um dilema maior. “O desafio é profissionalizar quem já participa voluntariamente do evento. Ou se consegue manter a simplicidade com que o Natal é feito aqui, ou se estanca o crescimento”, explica Daniela. Para o ano que vem, Ana Rech já tem uma verba de R$ 500 mil aprovada pela Lei Nacional de Incentivo à Cultura (Lei Rouanet), a ser captada no primeiro semestre. Nesse período, Daniela já terá passado o cargo de presidente da Samar a um novo voluntário. Mas a meta para a edição 2010, de gastar mais do que o triplo do orçamento deste ano e manter a essência humilde, continua sendo responsabilidade sua. E de toda a comunidade.
No dia do penúltimo espetáculo do Presépio Vivo, o Papai Noel passou uma tarde solitária em uma casinha montada no centro da praça. Desanimado, distribuia balas às poucas crianças que apareciam para fazer algum pedido. Em muitos lugares, o personagem faria o maior sucesso com a criançada. Mas em Ana Rech, uma vila perdida no tempo em que o presépio era o centro das comemorações natalinas, Noel não passa de uma figura decorativa.
Da versão impressa.
Foto: apresentação do Presépio Vivo em Ana Rech | Crédito: Maicon Damasceno/O Caxiense
















Comentários
22 de December de 2009 às 08:43
Excelente matéria. Parabéns!
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