Sangue alemão no comando grená
por O Caxiense | 09/01/2010 às 15:07
Osvaldo Voges é o homem de ferro na recondução do Caxias aos trilhos da vitória |
De um lado, uma linha de montagem com centenas de pessoas trabalhando como uma orquestra, em compasso, faça chuva ou sol, religiosamente, os produtos saem embalados e etiquetados para ganhar o mundo. De outro, um gramado verde, a céu aberto, milhares de pessoas ao redor de uma arena com onze homens e um só destino: vencer. Na indústria, o som da lida com o aço dá ritmo ao pensamento, mantém o olho atento ao projeto, ao mais minucioso detalhe. Não há espaço para nenhum improviso.
No campo, por mais confuso que pareça, pelo menos ao olhar mais banal, aqueles onze homens seguem uma só ordem. Tática, conceitos de guerrilha, como contra-ataque, seja a nomenclatura que for, todos eles obedecem a um ordenamento. Mas aí, do nada, como um relâmpago num dia mais ensolarado do que nublado, o craque irrompe a barreira da ordem, e como um exímio jazzista conduz a platéia ao delírio.
“No futebol, conheci um elemento diferente, que não conhecia na indústria: a paixão”, filosofa Osvaldo Voges, 41 anos, diretor-presidente da Voges e há três temporadas presidente da S.E.R. Caxias. Voges não é um daqueles craques que o futebol revelou. Mas tem lutado fora de campo pra dar muitas alegrias ao torcedor grená. “Sou um empreendedor por natureza. Na verdade, não sei bem, talvez seja teimosia de alemão mesmo”, brinca.
A seriedade é retomada ao explicar por que um empresário em ascensão resolveu ocupar a principal cadeira de um clube cheio de problemas.
“Como eu tinha comprado as empresas da Eberle, precisava mudar de nome, e resolvi que essa era a melhor estratégia de marketing. Então associei a minha marca à do Caxias”, conta, amparado-se na mesa de uma ampla sala em uma das suas empresas, no bairro São Ciro. Sem cerimônia, enquanto dissertava sobre as primeiras dificuldades de quando assumiu o Caxias, Voges abre o dossiê do clube diante do repórter. “Quer saber quanto o Caxias deve? Está tudo aqui. Esse relatório é feito por uma consultoria independente, a mesma que faz esse trabalho para as minhas empresas”, orgulha-se. “Quando assumi o Caxias um documento do clube dizia que a dívida era de R$ 13 milhões. Então contratei o serviço da auditoria, que descobriu que a dívida era de R$ 24,5 milhões”, lembra. “Não digo com isso que antes alguém roubava no Caxias. Na verdade, encontrei lá um grupo valoroso de abnegados. Mas hoje as coisas são mais transparentes.”
Voges já investiu no Caxias R$ 15 milhões. Parece muito, mas no mercado da bola, mesmo que inflacionado por estrelas de brilho curto, esse valor não sustentaria um craque mediano do futebol europeu. Mas essa quantia tem um valor diferente, porque o Caxias aponta para figurar entre as poucas equipes do mundo (não é exagero) a zerar suas dívidas. “Não temos mais a sangria desatada de antes, tudo o que temos de dívida está negociado, 90% das nossas contas estão em dia. Faz um ano que não temos mais surpresa de jogador entrando na Justiça cobrando dívida trabalhista. Em três anos, salvamos 12 leilões do Caxias. Já resolvemos 91 processos trabalhistas e nos faltam apenas oito”, garante.
“No futebol, conheci um elemento diferente, que não conhecia na indústria: a paixão”, diz Voges
“Quando cheguei no Caxias, não tinha um jogador que queria vir pra cá. Encontrei mais oficial de justiça do que jogador”, brinca. “O primeiro elenco que montei quis receber salário adiantado. Mas felizmente superamos isso. Hoje não temos mais dificuldade para trazer nenhum jogador. É claro, temos nossas limitações, pagamos pouco, mas pagamos.” A conversa era sobre futebol, mas a ênfase foi sempre o dinheiro, orçamento, dívidas, pagamento de tributos. Voges enxerga o Caxias como uma empresa. “Digo pra molecada: ‘se vocês não se derem bem no futebol, sejam metalúrgicos, é uma boa profissão, é uma atividade respeitada, temos até um presidente metalúrgico’”.
O Caxias não vai ultrapassar um orçamento de R$ 150 mil por mês com folha de pagamento, calcula Voges. “Em 2010, pela primeira vez desde que assumi, vamos usar 50% do orçamento disponível para o futebol. Nos outros anos usávamos até 30%. No ano, devemos investir de R$ 8 milhões a R$ 10 milhões”, planeja. Com um olho dentro da fábrica e outro no estádio, Voges respira um pouco mais aliviado do que em 2009. Não foram só os problemas do clube que tiraram o sono do industrial. A grave crise mundial assolou também suas empresas.
“Sei que tinha gente aí falando que eu ia sair do Caxias, mas não é do meu feitio. Como disse antes, é teimosia de alemão. Vou cumprir meu contrato de 15 anos com o Caxias”, promete. Fato é que a crise fez pelo menos uma baixa significativa no time grená: “Tu achas que se eu estivesse bem aqui na empresa eu teria perdido o Marcos Denner no melhor momento do Caxias na Série C? Pô, o Juventude ofereceu R$ 10 mil a mais para o cara e ele foi. Mas se eu tivesse mais equilibrado, como estamos agora aqui na empresa, eu não teria perdido o Denner de jeito nenhum”.
Mesmo com a economia reaquecida, Voges decidiu retirar o nome da sua empresa do uniforme grená. Novamente surgiram rumores de que o empresário sairia pela tangente. Fofocas à parte, a estratégia era reforçar o caixa do clube, e não apunhalar a torcida pelas costas. O anúncio do investimento do Banrisul dissipou esse nevoeiro. “O valor que o Banrisul vai repassar aos clubes é de R$ 300 mil ao mês. Por enquanto, só para o Gauchão. Mas com possibilidade sim, na teoria, de renovação”, acredita.
Voges não se constrange em falar de cifras. “Não terei vergonha em ganhar dinheiro com o Caxias. Quando estivermos negociando jogador por R$ 3 milhões ou R$ 4 milhões, vocês serão os primeiros a saber. As empresas de Caxias têm de entender que o clube dá a oportunidade a todos de associarem a sua marca ao time. Eu já invisto em esporte há mais de 10 anos e sei que dá retorno”, defende.
O problema em revelar os investimentos do clube, segundo o presidente, é atiçar advogados trabalhistas de plantão. “Só o Zé Clei, que jogou uns meses no Caxias, tem uma ação para cobrar R$ 1 milhão. E essa ação não temos como contestar, porque já foi dada a sentença. Tentamos negociar, mas ele está sendo irredutível”, diz, chateado.
Quando a conversa parecia se esvair nessa ladainha de cobranças judiciais, eis que irrompe na sala uma menina gritando pelo pai. Julia tem quatro anos, é filha do primeiro casamento de Voges. “Diz pro tio que é jornalista o nome do time do papai”, solicita a ela o pai atencioso. “Timão”, responde Julia. Voges, ruborizado, tenta ajudá-la. “Não, filha, ‘timão’ é o time da tua mãe, o do papai é outro. Qual é o time do papai?”, insiste. “Caxias!”, responde finalmente a menina, devolvendo o sorriso ao pai.
“Quando cheguei no Caxias, encontrei mais oficial de justiça do que jogador”, brinca o presidente
“A mãe da minha filha é corintiana, a avó dela é são-paulina, mas minha filha é do Caxias. Já levei ela para o estádio e nessa idade as crianças acabam criando uma afinidade com o clube. Aí não perde mais. Tem cara aí que troca de mulher, mas não troca de time”, diverte-se. Voges mudou de ambos.
A última mudança veio em 2009, na vexatória derrota de 8 a 1 para o Internacional, no Gauchão. E deixou uma lição: “Nunca mais vou contratar jogador por empréstimo com cláusulas em que o cara não possa disputar uma partida contra a sua equipe de origem. Nesse jogo contra o Inter não pudemos contar com jogadores importantes”. Em seguida, Voges admite: “Eu até era torcedor do Inter, mas desde aquela partida eu passei a ser o torcedor mais fanático do Caxias.” É bom lembrar que ele decidiu investir no Caxias por uma estratégia de marketing, e não porque era um fã do clube. Mas esse tempo dentro do Centenário o fez incorporar aquele sentimento ainda tão estranho ao seu universo metalúrgico: a paixão.
E com paixão, mas sem perder a mão de ferro, o alemão de Roca Sales pretende tornar o Caxias uma marca forte e um clube competitivo. O que para alguns não passa de um sonho, para Voges é mais um desafio. Só mais um, diante de tantos outros que ele já superou ou pretende superar.
“Sou a favor da globalização. E o Caxias não pode ficar fora disso, tem de abrir essa aldeia. Fui visitar como trabalham quatro dos maiores clubes do mundo, o Real Madrid e o Barcelona, da Espanha, e o Milan e a Inter, da Itália. A fórmula dos caras é a mesma do Manchester United há 15 anos: marketing agressivo, estreita relação com a comunidade e investimento na base para formar e vender”, enumera.
Dentro dessa cadeia, Voges ainda destaca os trabalhos desenvolvidos por grandes clubes do Brasil que nos últimos anos vêm figurando como os mais competitivos: São Paulo, Cruzeiro, Internacional e Atlético Paranaense. O sonho do presidente é levar o Caxias à Série B. “É o lugar de direito do Caxias. Subir para a B é o nosso principal objetivo do ano. E de vez em quando beliscar uma série A. Mas aí é outro assunto, porque time do interior não tem conseguido sobreviver na Série A. Mas de vez em quando ir lá e beliscar com certeza é possível.”
“Se tudo der certo este ano e conseguirmos pagar todas as dívidas, eu deixo o cargo”, planeja Osvaldo Voges
No ano dos 75 anos de fundação do clube, computados aí os tempos de Flamengo, Voges entra em 2010 com o peito aberto e já revela como pretende terminar o ano: “Se não zerar 100% das nossas dívidas, pelo menos vai chegar bem próximo disso. Quero subir para a Série B e o Caxias tem de chegar entre os quatro primeiros no Gauchão. Conquistando isso tudo, vou ficar muito feliz”.
“A minha maior alegria e satisfação no Caxias até hoje foi ver o estádio lotado no jogo contra o Guaratinguetá, no ano passado. Não ficamos com a vaga, mas foi lindo de se ver”, recorda Voges, mostrando a tela do seu computador com uma foto do Centenário cheio. “Oficialmente dizemos que tinha umas 25 mil pessoas, mas tem gente dizendo que tinha 31 mil, sei lá. Mas aquilo foi uma demonstração de como nossa torcida está madura. Porque podiam ter quebrado todo o estádio. Mas saíram todos silenciosos de lá, não tivemos uma ocorrência registrada, nada”, orgulha-se.
Esse vínculo com a comunidade, as constantes brigas com a federação por um preço de ingresso mais barato, o investimento na base, as dívidas sendo sanadas, a promessa de um trabalho continuado da equipe técnica, todos esses elementos, acredita Voges, vão tornar o Caxias um time vencedor. “Quem não gosta de investir em time vencedor? O Caxias precisa ser vencedor”, resume. “Nesta semana vou sentar com a Federação Gaúcha para baixar o preço do ingesso. A receita da bilheteria não sustenta um clube como o Caxias. Por isso quero ingresso a R$ 2, R$ 3, e não o mínimo de R$ 10, como deseja a Federação.”
O Caxias nem entrou em campo ainda, mas já é possível esboçar aonde pode chegar um clube que fora das quatro linhas planeja todos os seus passos. Ainda mais quando seu comandante diz se espelhar em dois dos mais importantes presidentes grenás da história. Dito por Voges: Francisco Stedile e Marcos D’Arrigo. Um pela sua devoção ao clube e por ter construído um estádio grandioso, do nada, em apenas seis meses. O outro porque, driblando as pedras pelo caminho, levou a taça de campeão gaúcho.
“Meu plano não é ser presidente por 15 anos. Vou continuar a investir no Caxias, mas se tudo der certo este ano e conseguirmos pagar todas as dívidas, eu deixo o cargo. Aí vai entrar alguém para ser presidente no meu lugar”, projeta. Se dentro de campo Voges quer proporcionar alegria aos milhares de torcedores grenás, que parecem ter acordado depois do histórico confronto contra o Guaratinguetá pela Série C de 2009, fora dele Voges sonha em tornar o Caxias uma S.A.. “Imagina o Caxias com um diretor-presidente e vários sócios! Cada um que quiser investir no clube poderá ser sócio”, projeta. Mas, primeiro, o Caxias tem que render em campo. É o que o presidente e todos os grenás esperam começar a ver no próximo sábado, na abertura do Gauchão.
(da versão impressa)
Foto: Voges já investiu R$ 15 milhões no clube: “É teimosia de alemão” | Crédito: Maicon Damasceno/O Caxiense
















Comentários
11 de January de 2010 às 16:03
Sobe pra série B Voges que depois tu vira prefeito!
11 de January de 2010 às 16:08
[...] de um tenso jogo-treino no último sábado o Caxias volta a treinar forte pensando na estreia do Gauchão. O empate em 1 a 1 com o Santa Cruz mostrou [...]
13 de January de 2010 às 11:37
O presidente Voges está correto ao ver que são “marketing agressivo, estreita relação com a comunidade e investimento na base para formar e vender”, os elementos para que times se fortaleçam. O que vejo é falta sensibilidade por parte das grandes empresas de Caxias em investir tanto no Caxias quanto no Co-Irmão alvi-verde, pois não há menor dúvida que potencial existe e há de sobra!!!
13 de January de 2010 às 12:31
É verdade Cassiano. Falta sensibilidade e visão de mercado.
Outra coisa, é preciso corrigir informação nesta reportagem. E melhor que seja eu, autor da reportagem. Onde está escrito Marcos D’Arrigo deve-se ler: NELSON D’ARRIGO. Cartão amarelo pra mim. Perdoem-me leitores.
15 de January de 2010 às 18:08
[...] presidente Osvlado Voges acredita que mais de 5 mil torcedores irão conferir a estreia da equipe grená no Gauchão. Neste [...]
20 de January de 2010 às 12:18
Marcelo, está tudo certo. Mas voltando ao meu comentário anterior, sobre a situação do futebol de Caxias, não consigo entender como uma cidade que tem um PIB de 9 bilhões de reais e é o 35ª no ranking, não fortalece seus times!!! Por fim, lendo reportagens como a tua, volto no tempo e me lembro, não somente de fatos históricos relavantes do meu time mas também do extinto “Jornal de Caxias” que marcou a mim pela qualidade.Parabéns a você e ao restante da equipe que está a frente deste novo projeto jornalístico. Abs, Cassiano
29 de January de 2010 às 10:52
[...] presidente do Juventude, Milton Scola, visita agora à tarde, às 14h30, o presidente do Caxias, Osvaldo Voges. O encontro será na sede de Voges [...]
29 de January de 2010 às 15:34
[...] futuro dos clubes passa por vários pontos em comum, reforça Voges. Como se fossem velhos conhecidos, os presidentes dos dois maiores clubes do interior do Rio Grande [...]
3 de February de 2010 às 18:34
[...] agora a organização vendia somente os motores. Com a parceria, segundo seu diretor-presidente Osvaldo Voges, oferecerá uma solução completa para o mercado, que também se beneficiará de nova opção, já [...]
9 de June de 2010 às 08:56
[...] atual presidente do Caxias, Osvaldo Voges concorre a um segundo mandato. No comando desde 2007, Voges tem a simpatia de torcedores e [...]
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