A voz multicultural
por Paula Sperb | 06/03/2010 às 12:02
Patrick Dimon, grego naturalizado brasileiro que canta em italiano, espanhol e outros cinco idiomas, faz o show de encerramento da Festa da Uva
Inflamado pelo calor de 40 graus do verão grego na ilha de Corfu, cognominada de Kerkyra, o chão foi atingido com 7.500 pratos que eram quebrados pelo magnata Aristóteles Onassis em uma casa noturna ao ar livre. A opulenta atitude mostrava o apreço do milionário pelo jovem cantor que se apresentava. Acompanhado de sua mulher, Jaqueline Kennedy Onassis, e dos hollywoodianos Elizabeth Taylor, Richard Burton, Ursula Andress, Onassis havia desembarcado do magnificente iate Christina – com oitenta cabines, duas piscinas e salão de festas para mais de 300 pessoas. Estava gostando tanto do show do soprano ligeiro que lhe dava uma gorjeta de 500 dólares a cada música cantada. Anos depois do esfuziante encontro, o cantor grego nascido na ilha de Samos, a mesma do matemático e filósofo Pitágoras, venderia mais de 5 milhões de discos em 180 países com seu sucesso Pigeon Without a Dove, gravado em 1979.
Adorado por muitos, mas um ilustre desconhecido para boa parte dos visitantes da Festa da Uva, Patrick Dimon se apresentará em Caxias do Sul neste domingo, às 20h, no show de encerramento do evento. “Como eu canto em sete idiomas, farei uma volta ao mundo musical, mas sempre com sucessos italianos”, conta Patrick, que cantará acompanhado de cinco músicos. Poliglota e naturalizado brasileiro, Patrick Dimon morou em diversos países acompanhando o pai, que foi vice-cônsul da Grécia na Argentina e Brasil. A música, que “pacifica, acalma e reabastece nos momentos difíceis da vida” – um lema do cantor –, está presente no cotidiano de Patrick desde os oito anos, quando entoava canções religiosas bizantinas. Foi num festival em Punta Del Este, Uruguai, onde representava seu país natal, que Patrick foi descoberto por Antônio Paladino, responsável pelas trilhas sonoras das novelas da Globo na gravadora Som Livre. Pigeon Without a Dove tocava nas cenas do personagem André Cajarana, representado pelo ator Tony Ramos, na novela Pai Herói. “Esta música foi adaptada do Guarani, de Carlos Gomes, um clássico”, explica, cantarolando a trilha de abertura do programa de rádio Voz do Brasil.
Patrick Dimon foi lançado na televisão pelo apresentador Chacrinha, mas também se apresentou nos programas do Bolinha e de Raul Gil, numa época em que cantores não tinham suas músicas baixadas na internet e que os fãs precisavam comprar os discos. “Não existia jabá, como hoje existe. Hoje você tem que pagar para aparecer, para cantar e até para gravar. Eu nunca entrei por essa linha porque o valor do artista não é pelo que paga. Você vê na televisão e escuta na rádio coisas que não quer. Porque pagam, sou obrigado a ver e ouvir esse tipo de coisa”, diz Patrick, garantindo que nunca cedeu aos modismos musicais, que considera decadentes. Ao cantar músicas de décadas atrás, Patrick Dimon questiona o que vai restar de frutífero, musicalmente falando, para as gerações futuras: “Tem alguma coisa que marque que está fazendo sucesso? Não tem. Este momento é o do descartável, do consumo. Temos que ter cuidado, porque a vida continua. Nossos filhos, a nova geração que está vindo, eles querem ver alguma coisa de qualidade. Como vai ser?”
Não é das cordas vocais que o timbre ressonante e claro da voz de Patrick Dimon surge. Basta observar o cantor que leva a mão ao peito, se curva levemente para frente e abraça espectadores. A voz que comunica na linguagem da sensação irrompe daquele músculo que bombeia sangue e irradia vitalidade. Foi com essas vibrações sonoras e emotivas que Patrick conquistou um fã em Caxias do Sul.
O advogado Guerino Pisoni Neto já conhecia suas músicas quando assistiu ao show do cantor num jantar do Instituto Vêneto. “Ele sentou na minha mesa, conversamos. Tínhamos muita afinidade. Gosto de todas as músicas, mas as italianas ele canta com o coração”, atesta. Ciente da preferência de Pisoni, ao preparar sua festa de aniversário de 50 anos, em julho de 2009, sua mulher convidou Patrick Dimon para cantar aos 354 convidados da comemoração beneficente, que recolheu fraldões para o Lar da Velhice e para Fundação de Assistência Social (FAS), no salão da Igreja Nossa Senhora da Salete. Na festa também estavam o prefeito José Ivo Sartori (PMDB) e o secretário de Cultura, Antonio Feldmann. O cantor marcou peremptoriamente os convidados. Tanto que retorna para encerrar a Festa da Uva, show que também deve ser inolvidável para os que escutarem as músicas com uma percepção que vai além da membrana timpânica. “Eu não canto para mim, eu canto para o público. Envolvo as pessoas, o público canta comigo. Sei que vou cantar em cima de um palco, mas vou tentar o máximo que as pessoas venham comigo”, diz Patrick, que costuma cantar em meio ao público e raramente no palco. “Detesto esse distanciamento.”
No Brasil, no mínimo duas crianças (que já devem ser adultas) foram registradas com o nome de Patrick Dimon em homenagem ao cantor. E os pelos do antebraço do músico eriçam quando ele conta histórias de seu auge. Uma delas, nos anos 80, é a de um fã paraplégico que ficou aguardando o ídolo do lado de fora de uma boate, no Paraná, pois não tivera autorização para entrar e assistir ao show. Patrick Dimon insistiu e ameaçou não cantar se o rapaz não entrasse. Por falta de espaço mais adequado para cadeirantes, teve de ficar na pista, mas entrou. “Todo meu show dediquei para esse ser humano, para essa criatura, ignorei as pessoas. Tinha muita gente, mas falei para todo mundo para dar alegria, esperança e paz para aquela pessoa”, conta Patrick.
O cantor já se apresentou em Caxias outras vezes, no Clube Guarany e no Recreio da Juventude. Daqui, gosta do galeto al primo canto, “ algo sensacional que se come em Caxias”, e afirma: “é uma cidade modelo do Brasil”.
Até semana passada, as principais lojas musicais caxienses não tinham nada da obra de Patrick Dimon para vender. Nem Guerino Pisoni Neto tinha mais o seu CD. “Mandei lavar a caminhonete e voltou sem”, lamentava. Mas, no show de domingo, três CDs do cantor estarão à venda: um de músicas italianas, outro cantado em espanhol e uma coletânea de sucessos. Ao vivo ou em compact disc, Patrick Dimon deixará sua contribuição multicultural a Caxias. Após o show, porém, o sociável artista deverá se isolar no camarim ou no quarto do hotel. Cumprirá seu ritual particular: “Faço uma retrospectiva para evoluir. Analise o que você fez, para que isso te traga benefícios, para que você progrida e cresça. Nunca um show é igual ao outro”.
Foto: Patrick Dimon animou a festa de aniversário de 50 anos do advogado Guerino Pisoni Neto | Crédito: Arquivo Pessoal, Divulgação/O Caxiense
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