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    Confetes de março

    por O Caxiense | 13/03/2010 às 11:28

    Sem repasse da prefeitura às escolas, atrasado no calendário e desfalcado, o Carnaval caxiense não perde o rebolado

    A previsão do tempo parece ajudar. A princípio, o fim de semana será de temperatura agradável, céu parcialmente nublado, mas nada de chuva. Pelo menos não o suficiente para atrapalhar os desfiles do Carnaval de Caxias – na sexta-feira (12) e neste sábado – nem sua festa de encerramento, domingo, no Espaço Multicultural dos Pavilhões.
    Repleto de dificuldades, o Carnaval vai ganhar a rua, especificamente a extensão da Rua Sinimbu que vai da Andrade Neves à Visconde de Pelotas. Em outubro do ano passado a prefeitura anunciou o corte total de verbas para as 19 escolas de samba da cidade, acabando com o incentivo que era dado anualmente. O argumento foi de que boa parte do dinheiro público foi consumido em bebidas, cigarro e festas em vez de ser investido nas escolas. Muitas das notas fiscais recusadas pela administração municipal e seus respestivos valores tornaram-se, então, dívidas dos participantes de cada instituição carnavalesca. Quem aceitou quitá-las, na maioria com parcelas a perder de vista, ou desistiu do desfile deste ano, ou tirou dinheiro do bolso para bancar as atividades e gastos referentes à produção de sua escola de samba.
    Mesmo sem o repasse anual, o Município ainda fornece infraestrutura (como as arquibancadas, aproveitadas dos desfiles da recém adormecida Festa da Uva) e sonorização. O total investido pela prefeitura, incluindo o pagamento da comissão julgadora e até lanches para servidores públicos que trabalharão na folia, é de R$ 176 mil.De acordo com o secretário de Cultura, Antonio Feldmann, a prefeitura sempre será apoiadora do Carnaval, como também é de outros eventos culturais. Para ele, a festa é um “evento popular legítimo” e, mesmo com a questão jurídica e política que a envolve atualmente, a manifestação cultural merece suporte. “O que se mostrou com a Festa da Uva se reflete no Carnaval, que é a cidade multicultural que temos. Sempre há público que prestigia. Respeitamos isso e procuramos promover e apoiar ações que enfoquem a diversidade cultural”, diz Feldman. A torcida é para que tudo ocorra dentro da normalidade, com a “elevação da bandeira da paz”, arrisca o secretário.

    Em comum, as escolas que desfilarão possuem fiéis seguidores e apaixonados pelo Carnaval, cada uma conseguindo da sua maneira o material e os recursos necessários para desfilar. Com a falta de verba, o número de componentes das escolas minguou, as fantasias tiveram que ser reaproveitadas de outros anos ou pedidas emprestadas e os músicos farão sua parte na harmonia ou na bateria de graça ou a baixo custo.
    A Reino do Sol e da Lua, fundada em 2006, foi ainda mais atingida pela falta de dinheiro. De acordo com sua presidente, Luzia Santos Alves, até o tema deste ano teve que ser mudado para se adaptar às contas. Agora as fantasias são reformadas para compor o clima de A Dama de Vermelho, enredo que conta a história dos ciganos e do misticismo que os envolve. O tema anterior, ela não conta. “É segredo, imagina! Vamos usar ano que vem”, anima-se.
    Autointitulada a mais nova presidente de escola de samba do Brasil, Luzia tem 20 anos, mas assumiu a agremiação aos 18. Com sua cara de menina, comanda trabalhadores que vieram até de Osório para colaborar com a escola. E a importação de mão-de-obra não se limita a isso. Na semana passada, estava em negociação um reforço à bateria vindo de Santa Maria, que acrescentaria uma ala de 60 pessoas.
    O barracão da Reino do Sol e da Lua, última escola a desfilar na sexta-feira, fica num lugar surpreendente: em pleno Centro de Caxias, na própria Sinimbu por onde desfila o Carnaval. Em frente ao Shopping Pratavieira, entre comércios de roupas, esconde-se uma casa simples, com uma grande árvore no jardim e um cachorro preso por conta da grande movimentação do local. Nos fundos do terreno, meninas trabalham nas fantasias.
    Quem ajuda a colar adereços e montar peças é a rainha da escola, Márcia Alves. Porém, ela tem um problema que pode destronar fácil alguém em sua posição: o tornozelo direito enfaixado. Uma semana antes do desfile, caíra de uma escada e torcera o pé. Questionada sobre o que faria se não sarasse a tempo, a rainha morena e miúda sorriu timidamente e anunciou que iria desse jeito mesmo. É o amor ao Carnaval e, principalmente, fidelidade à escola.
    Sonorizando o ambiente, um grande aparelho de som sintoniza uma rádio FM tocando pop rock. Não, eles não vivem com samba no pé o tempo inteiro, por mais que no topo do aparelho se encontrasse um CD dos sambas-enredo caxienses de 2009. O pessoal aparentemente guarda forças para o ensaio, à noite.
    Luzia, além de graciosamente tentar administrar as restrições orçamentárias da agremiação, será uma das puxadoras do samba e ainda desfilará em outra escola. Esse carinho pelo Carnaval vem de berço. A avó de Luzia, Ester Vitoriana dos Santos, tem 73 anos (“74 em abril”, observa) e veio da Bahia. Ela fica em uma pequena sala à esquerda, antes de chegar no barracão improvisado nos fundos, repleta de prateleiras com tecidos, fantasias prontas e separadas por cor, vidros cheios de canutilhos e miçangas e dezenas de cones de linhas das mais diversas cores. Mais duas máquinas de costura, além daquela em que Ester trabalha, encontram-se lá. Isso porque a filha, Nereida Santos, a ajuda na empreitada. “Ela é estilista, eu opero a máquina.”
    Cheia de vitalidade, Ester costura desde os 20 anos e, se precisar, ainda faz bainha de calça, acabamentos, reformas – é só passar lá. Da máquina de costura à Sinimbu, é um pulo. Para Ester, é a glória. “Sambo até o dia nascer”, garante. Enquanto isso, no barracão, quatro meninas se unem para trabalhar com cola quente, grampeadores e o que for necessário para montar as fantasias. De uma escola de Porto Alegre vieram 40 costeiros, aquelas armações que os foliões usam nos ombros.
    Mesmo com limitações financeiras e uma correria que tira o sono, Luzia tem certeza que um bom trabalho será feito. O importante é o envolvimento da comunidade, que neste ano será representada por mais ou menos 150 pessoas na rua. Ela só lamenta que, como alguns elementos tiveram que ser emprestados, não houve uma valorização do trabalho local.
    Dificuldade também na harmonia, que consiste nos cantores e em músicos empunhando violões e cavaquinhos. “Estamos tentando negociar. Conseguimos um que veio ensaiar uma vez. Mas não vamos deixar de desfilar por falta de nada. Podemos perder pontos, mas não vamos deixar o Carnaval morrer”, afirma Luzia.
    Os percalços aparecem para todas as escolas, das mais humildes às mais tradicionais. Até a campeã de 2009, Protegidos da Princesa, sofreu com a falta de verba. Segundo seu presidente, Jovelino Souza, isso exigiu um reaproveitamento maior de material. “Estamos adequando fantasias antigas com materiais novos”, explica.
    Localizado embaixo do Clube Gaúcho, no bairro Pio X, o barracão da escola é um espaçoso salão onde se encontram espalhadas diversas armações, manequins, fantasias e adereços. Numa salinha ao lado, Elisabeth Vieira trabalha em uma das máquinas de costura. Iria virar a noite lá, entre linhas e tecidos. Mas é um esforço que ela faz sorrindo. “A vantagem é ver o que tu fez na avenida. Tu chorou, se estressou, mas o trabalho está lá.”
    A palavra-chave é parceria. O Clube Gaúcho ajuda a financiar a escola, principalmente na promoção dos ensaios. Mães de pessoas que irão desfilar juntam-se à lista de trabalhadores e costuram em casa. Tudo para manter a agremiação de 42 anos em pé.
    O enredo deste ano é A verde e rosa canta e joga no tabuleiro de emoções. De acordo com o carnavalesco Alex Pires, os jogos que servem de tema não se limitam aos esportivos, mas também os da sedução, de sentimento e até o jogo da vida, representado pelas cartas de tarô carregadas pela ala das baianas. Inspirado no resultado de 2009, Alex aposta no bicampeonato. Para tanto, é preciso inovar e surpreender. “Teremos muitas novidades, coisas nunca feitas antes. O que posso adiantar é que não sairemos com esplendores, que tradicionalmente apresentamos grandiosos. Teremos dois elementos-chave que são surpresa”, prometia.
    Contrariando a maioria das escolas, que pegaram fantasias e adereços emprestados, principalmente de Porto Alegre, a Protegidos da Princesa preferiu reaproveitar tudo que foi possível. “Teremos oito alas, todas montadas aqui. Carnaval não se ganha só na fantasia”, ressalta Alex. A única exceção é o traje do casal de mestre-sala e porta-bandeira. Sem a verba municipal, o Carnaval da escola será menos luxuoso. “Tivemos que mudar tudo. Sorte que temos nosso próprio barracão, onde podemos guardar o material utilizado anteriormente. Vou usar armações de seis anos atrás, acredita? Esse mar de plumas que tem aí é tudo de outros anos”, explica.
    A vice-presidente Daniela Padilha acompanha tudo de maneira contida, mais ocupada com ligações, aquisição de material e correria para trazer e buscar coisas para o barracão. Mesmo já sendo encarregada de um bom número de tarefas, ela ainda sente que não dá 100%. “Fica meio fora de mão porque eu dou aula à noite”, conta. O esforço será recompensado quando os aproximadamente 300 foliões pisarem na Sinimbu neste sábado, às 22h30.

    Mais afastado do Centro é o barracão da Unidos da Tia Marta, segunda escola da noite de sexta. Próxima ao aeroporto, a casa de esquina comporta não somente o material da escola de samba, mas também o íncrivel número de quatro famílias. No porão, Marta Clari Vieira Lopes, a Tia Marta, professora aposentada, recebe visitantes com o rosto coberto de purpurina. Dobrava blusas de TNT (o chamado tecido não tecido, comum em vestimentas carnavalescas) decorado com arabescos dourados. Algumas partes do tecido, comprado em São Paulo, estavam mais apagadas e gastas que outras, impedindo um brilho uniforme. É que as blusas já foram utilizadas. Agora, viram outras peças de roupa, como vestidos para crianças do desfile. “Sem verba, temos luxo reciclado”, diz Tia Marta.
    O tema deste ano é Tia Marta entre os sete pecados e as sete virtudes. Somente um carro será usado no desfile e, para complicar, o pneu dele estourou. O corte de recursos foi mais sentido na confecção das roupas, mas um auxílio veio, de certa forma, do poder público. Alguns vereadores colaboraram financeiramente com doações, como Édio Elói Frizzo (PSB), Geni Peteffi (PMDB) e Denise Pessôa (PT), além de um vereador de Gramado. Mesmo assim, o trabalho é puxado. “Meu irmão e minha irmã ajudam na costura. Marido, filho, sobrinha de Porto Alegre, todos comparecem. Essa noite, fui dormir às 4h30 e às 8h30 já estava aqui de novo”, contava Tia Marta.
    Ela conta que o cancelamento do repasse da prefeitura afastou os foliões. “Muita gente fugiu, tanto que, dos 373 integrantes, apenas 200 irão desfilar.” Serão 15 alas pequenas, de no máximo 12 participantes cada.
    Tia Marta se diz magoada, se sente ofendida, como se chamassem ela e sua escola de ladrões. Para ela, falta compreensão dos gastos necessários. O principal é a manutenção de instrumentos para as 70 pessoas que compõem a bateria, destaca, mostrando dois tamborins com a pele partida e apontando outros tantos à direita do barracão, todos decorados com as cores da escola: laranja, preto e vermelho. Outra despesa, essa bastante contestada, é com bebida e comida nos ensaios, que acontecem ao lado de sua casa. Tia Marta se defende: “Ponho bebida para os meus meninos, sim. Tem gente que trabalha, vem de longe, se sacrifica. Aí chegam aqui e não tem nenhum agrado? Tem que ter comida e bebida, sim”.

    Convalescente, sob os cuidados de apaixonados, o Carnaval de Rua de Caxias está longe de terminar. E guardará 2010 como o ano da superação. Os desfiles começaram na sexta, com Acadêmicos de São Miguel, Unidos da Tia Marta, Nação Verde Branco, Império da Zona Norte, Mancha Verde, Acadêmicos do São Vicente e Reino do Sol e da Lua. Prosseguem neste sábado, com Unidos da Zona Norte (19h30), Acadêmicos de Vila Leon (20h30), Pérola Negra (21h30), Protegidos da Princesa (22h30), Unidos do É o Tchan (23h30), Império do Jardim América (0h30) e Império de Casa Azul e Branco (1h30).
    No domingo, a folia se estende nos Pavilhões, a partir das 15h, com os grupos de pagode Swing Natural, Di Bobeira, Grupo K, Só Si Kisé, Vitrine do Samba, Black XB e Declarasamba. Às 19h, o Carnaval mais suado dos últimos tempos termina em grande estilo, com Neguinho da Beija-Flor, show de R$ 40 mil (pagos pela prefeitura).

    Foto:Rainha Márcia colabora na fantasia da ala das baianas | Crédito: Maicon Damasceno, Divulgação/ O Caxiense

    Categoria: Cultura, Geral, Impresso | Tags: Carnaval,Cultura,Impresso

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