Muito além de um confronto
por O Caxiense | 26/03/2010 às 18:15
Caxias e Inter enfrentam-se pela 147ª vez, neste domingo, rememorando confrontos históricos, antigos e recentes
O tempo. Com vaguidão, desprezo, idolatria, amor ou ódio, o tempo é impiedoso. Não tem começo, não tem fim. Antes de a bola rolar ele desvela o cenário e os sentimentos envolvidos numa partida de futebol. Seja ela decisiva ou só mais uma pelada entre amigos. Há quem se veja perdido entre os tique-taques das horas, tentando reprimir a arritmia, a boca seca, o olhar trêmulo. Com a bola cravada entre as travas da chuteira e o prado verde, naquele instante antes do apito inicial, o jogador pressente que o tempo parou.
Mas ele nunca para. Um time recém patrolado por outro terá de enfrentar logo após o apito final horas e dias arrastados até o próximo confronto. Porque uma partida de futebol dura 90 minutos, mas seu resultado pode durar para sempre. E não só porque o placar foi absurdamente elástico, derrubou o treinador ou, ainda, deu o título a um determinado clube. Como escreveu Raduan Nassar, no livro Lavoura Arcaica: “Embora inconsumível, o tempo é o nosso melhor alimento”.
E nada como um dia depois do outro para escrever-se uma nova história. Um dia, o Caxias perdeu de 8 a 1 para o Internacional. No outro, pode devolver a goleada, porque o ex-algoz anda levando surra de vara curta de quem passe pelo seu caminho. O tempo é implacável. Redistribui os papéis como se fosse um diretor de teatro contemplativo, que a tudo vê, mesmo a distância, amparado pelo pêndulo ritmado do tempo. Caxias e Inter enfrentam-se neste domingo, dia 28 de março de 2010. Já na estação do outono. Estação de contemplação, de revisão, que nos conduz do excitante e verborrágico verão ao sossegado e intimista inverno.
Daquele primeiro confronto, em 13 de dezembro de 1947, quase tudo mudou. O futebol tinha outro tempero, outro perfume, outros porquês. Inter e Caxias não tinham sequer os estádios que hoje possuem. O time grená tinha até outro nome. Chamava-se Flamengo. Inter e Flamengo disputaram seu primeiro duelo no Estádio dos Eucaliptos, a casa dos colorados antes do Gigante da Beira-Rio. O Inter tinha no gol Harri. O arqueiro do Flamengo chamava-se Ary.
Os clubes disputavam o Campeonato de Aspirantes. O primeiro gol foi do Inter, aos 25 minutos do 1º tempo, com o atacante Eliseu. No 2º, Sady, do Flamengo, descontou, logo aos 10. Terminava em empate o que ficou marcado na linha do tempo do mundo da bola o primeiro confronto entre o time da Serra e o da Capital.
Mais de 60 anos separam o primeiro gol grená contra o Inter do último, marcado por Lê, em 1º de novembro de 2009, na vitória de 1 a 0 sobre o Inter B, pela Copa Arthur Dalegrave. Rever disputas entre dois clubes causa uma estranha sensação. É como se as partidas não tivessem fim, como se uma fosse continuação da outra. É o tal do tempo “inconsumível”, uma entre tantas metáforas desenhadas por Raduan Nassar para descrever-nos nessa dura caminhada através dos anos.
analisar apenas os números dos confrontos, as vitórias e derrotas, gols feitos e sofridos, é reduzir o esporte a um trabalho mecanicista, em que sequer importam as peças distribuídas por esse tabuleiro de grama. E resta o quê depois de computar que os times grená e colorado disputaram 146 partidas (isso aglutinando a história de Flamengo e Caxias), segundo o historiador extra-oficial do Caxias, Jorge Roth. Ou ainda, 158, entre Inter A, B, aspirante, amistosos e jogos oficiais, conforme o site Arquivo Grená, coordenado por Rafael Bernardi Rizzon. Números criam tramas infinitas de percepção da realidade. Embora, descontextualizados, desumanizem o futebol e o afastem do real sentido: emocionar o torcedor.
Mais vale a relação de êxtase e piedade revelada por Adenor Bacchi, o Tite. O treinador estava do lado colorado naquele 19 de abril de 2009, uma tarde inesquecível de outono. Inesquecível para os torcedores do Inter, pela goleada de 8 a 1, e que lhes deu o título de Campeão Gaúcho. E inesquecível para o torcedor grená, que arrepia-se com as cenas dos oito gols como se fosse o pior – e interminável – pesadelo de suas vidas. Naquela tarde, Tite sorria porque erguia a taça pelo Inter, mas sofria, em silêncio, porque sabia da dor do outro lado. Não apenas por ter sido vitorioso com o Caxias, nem por ter deixado saudade no clube. Mas porque sabe a dor que é perder, e de goleada.
“Nesse jogo, quando deu o quarto gol, eu não vibrava mais. Ficava comedido, na casamata. Estavam decidos o jogo e o título. Não tinha necessidade de eu vibrar mais, como forma de respeitar a dor do outro”, revela Tite, por telefone, do seu apartamento em Porto Alegre. Atualmente sem clube, Tite reconstitui calmamente a partida.
“Estávamos num momento muito bom da equipe. Um dos momentos em que o Inter atingiu o ápice de sua condição técnica. Jogávamos de forma bonita, mas efetiva. Com muita triangulação e muita agressividade, no ataque e na defesa. O resultado foi atípico, não imaginava que fosse dessa forma. Mas tudo isso foi reflexo dos primeiros 45 minutos perfeitos da equipe. O time estava muito focado, intenso na marcação, praticamente erro zero. E quando ia pro ataque convertia em gols”.
Há quem tente justificar o que aconteceu. E há quem não consiga explicar por que sorria mesmo levando tantos gols. Nelson D’Arrigo, presidente do Caxias, em 2000, quando o clube venceu o Campeonato Gaúcho, já disse, aqui n’O Caxiense: “Ao perdedor cabe justificar a derrota”. Nem sempre é fácil, nem possível. E não há tempo que apague perder de 8 a 1. Mesmo que daqui para frente o Inter perca todas para o Caxias, daqui a 100 anos, os filhos dos filhos colorados ainda vão dizer que já venceram os grenás por 8 a 1.
Assim como está escrito na história que o Caxias venceu o imbatível colorado em 1976. Era o primeiro jogo do Estádio Centenário, oficialmente Francisco Stedile, nome do então presidente grená. Em campo, além do hoje ilustre – e na época zagueiro ruim de bola – Luis Felipe Scolari, estava um outro homem de bigode, Cézar Angelo Bagatini. O goleiro, nascido em Encantado e que veio em 1968 para Caxias jogar nos juvenis do Flamengo, descreve a partida como se estivesse narrando um filme. Uma epopeia, na verdade, já que o Inter, no mesmo ano, conquistara o oitavo título gaúcho seguido, e havia vencido, em 1975, o título nacional.
O jogo foi disputado dia 12 de setembro de 1976. Quinze mil pessoas estavam no estádio, especialmente construído para o Campeonato Brasileiro. O árbitro foi Armando Marques, de tantas Copas do Mundo. “Havia uma motivação a mais para os jogadores por estarmos enfrentando um dos times da dupla Gre-Nal. É nesse momento que o jogador aparece na vitrine. Jogarmos o Campeonato Nacional, então, foi uma motivação maior ainda, porque sabíamos que o jogo era importante, pela própria ascensão do Caxias. E ter vencido o Inter fechou com chave de ouro”, conta Bagatini, hoje com 58 anos.
O Caxias venceu aquele jogo do Campeonato Brasileiro com gols de Osmar e Bebeto – este, segundo Jorge Roth, fazia sua estreia como centroavante grená. O Inter descontou no segundo tempo, com Valdomiro, conforme súmula do jogo publicada no site Arquivo Grená. Na primeira edição d’O Caxiense, Jorge Roth descrevia em detalhes os gols do Caxias nesta conquista importante diante do Inter, que no mesmo ano venceria mais uma vez o Brasileiro, não sem antes cair diante do Caxias, no Centenário.
“O Caxias ganhou de 2 a 1. E foi um dos únicos a vencer o Inter naquele ano. O primeiro gol do Caxias foi do Osmar, que chutou uma falta no ângulo. O segundo foi do Bebeto. O Caxias rouba a bola na defesa, em poucos toques a bola é cruzada, atravessa a área e chega ao peito de Bebeto, que domina e chuta forte, um canhão no ‘fundo dos cordéis’, como diziam os antigos”.
Na mesma partida, o goleiro Bagatini seguraria a vitória, com uma defesa de cinema. Fosse numa Copa do Mundo, Bagatini seria hoje tão conhecido e venerado como o inglês Gordon Banks (o homem que parou Pelé). “Nesse jogo, fiz a defesa mais bonita da minha carreira. O Inter veio numa triangulação e entrou na área. Saí num dos atacantes, que estava na marca do pênalti, mas este passou para o Valdomiro quase na pequena área, mais a frente. O Valdomiro chutou, eu saltei e defendi de mão trocada. O jogo estava 2 a 1”, recorda, sorrindo, Bagatini.
Tite, justiça seja feita, não foi apenas algoz do Caxias. Já deu muitas alegrias ao torcedor grená, como treinador e jogador. Tite não lembra se era em 1978 ou 1979. Mas Roth e suas pesquisas confirmam: o referido jogo em que Tite fez gol no colorado ocorreu em 3 de agosto de 1980.
“O Benites era o goleiro do Inter. Nós vencemos por 2 a 0. O Centenário estava lotado. Eu era um meia armador mais avançado, jogava ou com a 8, ou a 10. Meu gol foi assim: teve um cruzamento do lado esquerdo, não sei se de falta ou com a bola rolando. Me antecipei ao zagueiro e cabeceei no chão, no pé da trave. Saí vibrando na Ferradura. Não sabia se estava flutuando, ou o quê, era um momento de êxtase. Eu tinha 18 anos…”, recorda Tite, feliz como se tivesse acabado de fazer o gol.
Roth recorda de pelo menos outras duas vitórias grenás diante do Internacional. “Destaco a vitória no octogonal do 1º turno do Campeonato Gaúcho em 15 de abril de 2000, ano do título grená. Mais uma vez tendo Tite como treinador. O Caxias venceu por 2 a 0, com gols de Delmer e Adão. E teve ainda, em 4 de fevereiro de 1999, na Copa SulBrasileira, mais uma vitória de 2 a 0, desta vez no Beira-Rio, com gols de Washington e Grizzo. Na época, Washington se tornava o maior artilheiro do Caxias, com 53 gols, recorde que depois veio a ser superado pelo Delmer”, lembra Roth.
Entram e saem jogadores, como um teatro inextinguível, com um texto de improviso a cada nova geração. O cenário muda. Pode ser em dias de outono, de folhas secas espalhadas pelas calçadas ao redor dos estádios. Pode ser em noite de luar, de veranico de maio. Pode ser sob o olhar atônito de uma torcida que imagina viver um sonho ou pesadelo coletivo. Mas todos os que já vestiram as cores grená e colorada parecem reencontrar-se em cada nova batalha. E tudo vem à tona numa fração de segundos. Porque se Cristian Borja perder um gol na cara do goleiro, algum torcedor vai lembrar que Bebeto não teria perdido. Da mesma forma, no lado colorado, se Fabiano Eller furar e deixar o campo aberto para o Caxias fuzilar as redes do gol colorado, algum torcedor vai lembrar que Figueroa não teria permitido.
Esse tempo de angústias e felicidades dribla os torcedores de futebol. Seja na era pré-histórica, quando o jogo tinha a cadência de uma partida entre amigos, ou mesmo era na pós-moderna, do avanço veloz dos alas em profusão. O tempo, não aquele dos 90 minutos de uma partida, mas o tempo inconsumível, revelado por Raduan Nassar, “é o maior tesouro de que um homem pode dispor”. O escritor complementa: “rico só é o homem que aprendeu, piedoso e humilde, a conviver com o tempo”. Na goleada ou na justa vitória por 1 a 0, com gol aos 47 do 2º tempo.
Foto: Ex-goleiro grená, Bagatini teve a oportunidade de fazer, contra o Internacional, aquela que ele considera a defesa mais bonita de sua carreira | Crédito: Maicon Damasceno/O Caxiense
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