A letra persistente de Pozenato
por Paula Sperb | 17/04/2010 às 11:56
Aos 71 anos, o professor e escritor José Clemente Pozenato não quer descanso: arquiteta uma segunda trilogia
A barreira diáfana das janelas impede que o sopro do modesto zéfiro alcance o escritor e professor José Clemente Pozenato, 71 anos, nascido na silenciosa localidade de Santa Teresa, em São Francisco de Paula. Até os 12 anos, o menino que começou ler livros aos 3, viveu em uma terra onde os vizinhos mais próximos ficavam a uma légua e o vento célere carregava o gosto do charque desfiado e frito com farofa, uma tradição tropeira. O contato com a cultura italiana, decisivo para a processo de criação de sua ficção, se deu somente ao chegar em Caxias do Sul para estudar no Seminário Nossa Senhora Aparecida, em 1950. Paçoca, pamonha e cuscuz eram substituídos por galeto, massa e polenta. “A primeira surpresa foi descobrir que as pessoas têm dificuldade para ficar em silêncio. Outra foi a insistência para comer mais e o exagero dado ao trabalho”, diz Pozenato, ao explicar as diferenças culturais que prenderam atenção do menino que observava detalhes e decifrava o mundo.
O ânimo de escrever surgiu ao perceber que havia quem escrevesse pior. E quem falasse também. Uma empregada da família se demitiu ao ter a pronúncia corrigida pelo pequeno José, que então soou inclemente. “Devia ter 7 anos naquela época, eu não perdoava. Me orgulhava de falar direito”, conta. Com tempo livre e uma biblioteca não conservadora, aberta à literatura contemporânea de José Lins do Rego e Erico Verissimo, começou a aprender as técnicas literárias. “Quem levava vantagem era Machado de Assis. Não há ninguém que tenha dominado tão bem a língua portuguesa”, classifica Pozenato, que além do português domina outras sete línguas, incluindo grego e latim.
A habilidade com as letras conduziu Pozenato para a atividade do ensino. Ainda em São Francisco de Paula, teve a primeira experiência em lecionar. Seu pai e também professor, Jerônimo Pozenato, um disciplinador que militava pela liberdade de pensar, solicitava sua ajuda para os alunos com baixo desempenho. Oficialmente, são 51 anos de docência, iniciados no Seminário onde estudou. Graduado em Filosofia e Teologia, foi ordenado padre e abandonou o sacerdócio em 1972. E antes mesmo do surgimento da Universidade de Caxias do Sul (UCS) como a conhecemos, lecionou no embrião que foi a Faculdade de Filosofia. “Fui contratado para dar aula de Teologia para o curso de Letras. Falava de Deus e o diabo em Guimarães Rosa, a ausência de Deus em A Noite, de Erico Verissimo. Passaram a reivindicar que eu desse aula de Literatura”, recorda.
Ao longo de décadas ensinando mais do que o conteúdo programático – “ter coragem para pensar sozinho e ter coerência, essas coisas a gente não ensina, é o modo como se age” –, muitos passaram pela lista de chamada da aula do professor. “Depois de um tempo, ver quem foi aluno e encontrou seu caminho é gratificante”, diz. Um dos que encontraram seu caminho é José Ivo Sartori, prefeito de Caxias do Sul. “Foi um grande professor de Literatura. Na faculdade tive aula de Ética, foi uma das melhores disciplinas que fiz. O apelido que a gente dava a ele no futebol era Rasteirinha, ele era mais baixinho, tinha problema nos óculos. Era uma forma carinhosa de chamá-lo. Embora seja reservado, ele é muito espirituoso”, descreve-o Sartori, que esteve presente, em 1967, no lançamento do primeiro livro de Pozenato, Matrícula, em conjunto com Jayme Paviani, Oscar Bertholdo, Ary Trentin e Delmino Gritti. “Foi na Avenida Júlio de Castilhos, na Livraria Paulinas. O livro tinha a capa em uma cor de vinho”, conta Sartori. O respeito pelo caráter e pela produção literária de Pozenato fez com que Sartori o convidasse, em 2005, para ser o secretário de Cultura de seu primeiro mandato. “Para minha surpresa e da cidade, fui convidado. Foi um convite pessoal e por isso aceitei”, diz Pozenato, que ficou apenas 16 meses no cargo. “O ônus que paga um administrador público não compensa. Há um consenso na opinião pública de que o político só quer vantagem pessoal”, justifica. Mesmo assim, projetos implantados em sua gestão seguem funcionando, como o Programa Permanente de Estímulo à Leitura (PPEL), que forma leitores e mediadores de leitura, promove a importância do livro e a produção literária e editorial.
O trabalho como gestor em atividades administrativas acompanha Pozenato desde sua entrada na UCS. Atualmente, além de professor e pesquisador, é coordenador do Mestrado em Letras, Cultura e Regionalidade. O final de sua carreira de professor poderia ter sido em dezembro de 2009. Os professores da instituição com 70 anos ou mais precisaram se aposentar. Sentado, balançando a cadeira, com a janela sempre fechada para o vento não entrar, das 14h10 às 16h30, Pozenato falou aos alunos sobre o processo de formação dos sistemas da literatura brasileira na última aula do semestre. Ao encerrar a exposição do conteúdo para a turma de dez mestrandos, incluindo esta repórter, sua face ganhou cores de uma taça com goles derradeiros de vinho. O azul dos glóbulos oculares ficou imóvel, tentando sem sucesso se esconder atrás das lentes dos óculos que, se não fosse pelo autocontrole, seriam as únicas barreiras para as lágrimas anunciadas, mas contidas. “Me ocorreu que era a última aula do programa. Me deu um nó na garganta. A sorte é que eu não tenho só aula. Posso botar nos livros o que tenho pra dizer”, contou Pozenato em janeiro deste ano, quando ainda não sabia se haveria possibilidade de continuar na UCS ou não. Por uma solicitação dos demais professores do Mestrado, Pozenato segue coordenador – até julho, quando deve se afastar, mas ainda com chance de manter vínculo com a UCS através da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). “O Assis Brasil disse que o bom da sala de aula é que só as paredes envelhecem, os alunos são sempre jovens”, cita, planejando atividades. “Não pretendo parar. O principal plano é retornar aos meus projetos de literatura.”
O romance é o único gênero capaz de captar a realidade com complexidade e, para Pozenato, a literatura busca sentido. É uma procura que dura tempo indeterminado da ideia original até a publicação do livro, em um processo de criação interna difícil de entender para quem não convive com um escritor. “Quando ele está escrevendo é um horror. Antes ele produz a obra no cérebro. Quando ele começa a não falar, a não escrever, sei que ele está fazendo algo. Quando ele senta no computador, ele se prende à realidade. Enquanto a obra não sai, ele fica assim”, conta Kenia Maria Menegotto Pozenato, esposa do autor. Para uma professora da sétima arte e um escritor que “se não escrevesse romance ia tratar de ser diretor de cinema” é possível afirmar, sem erro, que a cena do dia em que se conheceram foi coisa de filme. Num dia quente de janeiro de 1974, Kenia assistia a um curso de férias para aperfeiçoamento de professores públicos. O ministrante do curso, como em uma película romântica, era José Clemente Pozenato, que achou a aluna muito distraída por rabiscar durante a aula e se aproximou: “É uma caricatura?”, perguntou a Kenia, formada em Licenciatura em Desenho. “Não, não é uma caricatura.” Kenia havia desenhado o retrato de Pozenato, hoje pendurado na sala do apartamento do casal com três filhas: Maria Helena, Heloísa e Ana Maria.
Kenia, ao contrário do marido, é urbana e cresceu brincando na Praça Dante Alighieri (na época Ruy Barbosa), pois vivia no Hotel Menegotto, gerenciado pela mãe, Aida Maria Menegotto. Ambos de uma família de muitos irmãos, mas ambos muito diferentes. “Ele é calmo, eu sou espoleta. Quando não raciocino, ele raciocina”, compara. Kenia fala com ternura do filho de Dentília da Silva, uma “mulher silenciosa”. “Sempre calmo, e muitas vezes pai e mãe. Trocava fraldas, dava mamadeira. Até hoje as filhas dão abraço nele no Dia das Mães”, conta Kenia, que o descreve como “marido especial, pai carinhoso e dedicado, um filósofo”. Kenia e Pozenato se casaram numa quarta-feira, 18 de dezembro, na Catedral Santa Teresa, sem um casal de padrinhos que confundiu a data e sem o fotógrafo contratado. A única foto do casamento é guardada com zelo e mostra Kenia com o vestido de gola alta que também foi usado no casamento de sua filha do meio. “A melhor coisa que me aconteceu foi casar com meu marido. E daí veio todo o restante, minhas filhas, minha vida acadêmica. Nunca houve briga em 35 anos”, recapitula.
Na noite do Oscar de 1996, quando a adaptação de O Quatrilho concorria ao prêmio de melhor filme estrangeiro, Kenia permaneceu a 9.966 quilômetros de distância de Pozenato, que estava em Los Angeles. “Acompanhei a festa toda no Hotel Samuara. Houve várias festas em Caxias, os Sehbe nos convidaram primeiro e aceitamos”, lembra ela. Pozenato viajou uma semana antes para participar de diversas cerimônias da Academia e conta que, até a véspera, a sensação era de que O Quatrilho ganharia o prêmio. A Excêntrica Família de Antônia, mesmo com roteiro fraco na opinião de muitos, acabou levando a estatueta. E Pozenato não viu a entrega do Oscar, pelo menos não pessoalmente, pois cedeu seu lugar para João Clemente Baena Soares, cônsul do Brasil. “Também não ia tomar lugar dos atores”, explica. O elenco do filme dirigido por Fábio Barreto era formado por artistas como Glória Pires (Pierina), Patrícia Pillar (Teresa) e Bruno Campos (Massimo) – cuja ida a Hollywood foi decisiva para lançá-lo em carreira internacional, consolidada em seriados norte-americanos. Pozenato vendeu os direitos do livro, abrindo mão de uma participação na bilheteria (na primeira semana, 2 milhões de espectadores assistiram ao filme) por recomendação de pessoas conhecidas. “Todos disseram ‘pega teu dinheirinho e vai pra França. Todos que vão pelos direitos param na Justiça’. Peguei meu dinheirinho e fui viajar”, relata o escritor. O livro renderia quatro roteiros para filmes diferentes, mas a produção optou pelo enredo com mais apelo popular (tão popular que no ano de lançamento, 1995, inspirou uma versão pornográfica). Na cena final de O Quatrilho, do diretor Fábio Barreto, José Clemente Pozenato interpreta o fotógrafo. Para a sequência de imagens que dura só alguns segundos foram necessárias três horas e sete minutos de filmagem na antiga Estação Férrea de Caxias.
O Quatrilho é um dos 25 livros, entre romance, poesia, policial, ensaio, infantil e pesquisa, publicados por Pozenato. “O romance de José Clemente Pozenato tem o seu eixo temático na imigração italiana no Rio Grande do Sul. Mas é uma obra amplamente universal, porque indaga os caminhos da História e o destino do homem entendido como um espaço existencial onde sempre se cruzam caminhos não adivinhados nem suspeitados”, avalia o doutor em Letras Flávio Loureiro Chaves. Mesmo se considerando um iluminista, Pozenato escreveu uma tese marxista de crítica social em O Quatrilho. As mudanças na economia da região e sua interferência nas relações compõem um dos pontos de uma história em que a situação é particularizada ao extremo através das relações amorosas. A preocupação social está presente na vida do autor desde quando participava de programas populares de alfabetização nos anos 60. A inspiração para O Caso do Loteamento Clandestino foi uma placa em um terreno, na qual estava escrito “FASPOSO” (faço poço). Logo, Pozenato questionou-se o que havia por trás, se falta de tradição letrada ou falta de saneamento. O Caso do Martelo também surgiu de uma sutileza. Ao tomar café em uma casa no interior, percebeu que a bebida foi servida em uma bandeja com toalha de plástico, não de crochê – “onde está a tradição?”, indagou-se. “O fato de eu ter chegado de fora com esse olhar treinado a observar me proporcionou a escrever sobre a cultural italiana. Quem é dessa cultura acha que é normal”, explica.
A trilogia formada por O Quatrilho, A Cocanha e A Babilônia pode ser seguida de mais uma trinca. O Candidato deve ser o próximo livro de José Clemente, que contará a história de um político que concorre a um cargo pela primeira vez. Pozenato usará sua experiência na disputa para deputado estadual pelo PSDB em 2002, quando atuava na política universitária e aceitou colocar seu nome à disposição para somar mais votos ao partido. Como escritor, quer contar que a política partidária é a mais transparente que existe. “Quem não entra na política não tem condições de saber como ela é por dentro”, conclui. A primeira cena já está escrita e deve ter sequência assim que começarem as eleições deste ano. “De repente, vem à tona.” Também baseado na sua experiência, mas de um projeto de cerca de 20 anos, O Cínico é outro livro do autor com o primeiro capítulo pronto, e será um romance sobre a universidade. “No Brasil há espaço para mostrar por dentro uma universidade. Todos imaginam que o saber é o determinante de todas ações, mas na verdade pode ser outro”, diz, enigmático. Apesar de os nomes de suas obras serem uma das últimas coisas decididas, os títulos provisórios estão escolhidos. O terceiro livro, O Território, será uma fábula com gatos como personagens principais. Gatas, na verdade. Dometília e Sissi são as mascotes da família, que têm direito a um calendário com suas fotos pendurado na cozinha. Inspirada em um livro japonês, a fábula terá os felinos como críticos da sociedade. Vai mostrar “se é verdade o que Gilles Deleuze diz, que o sentimento de território que os homens têm como meta foi aprendido com os gatos”. Além das gatas, que ocupam até os porta-retratos – “gosto de gatos porque eles têm uma espécie de rebeldia mental” –, casais de canários e periquitos vivem no apartamento da família. Mas o que realmente tem dado alegria é o nascimento da neta Sabrina, filha de Heloisa, em março. Pozenato sintetiza essa felicidade com a seguinte frase: “a responsabilidade é substituída pela disponibilidade”.
Como a personagem Rosa Gardone, de A Cocanha, ao embarcar no navio da Itália para a América, Pozenato considera mais importante o primeiro passo. Mas, para o autor, todos os momentos de sua carreira – e de seus livros – são decisivos, “nunca há o clímax”. Antes de se preocupar com o que enfrentaria na América, Rosa sentiu medo ao olhar para a água quando atravessava a passarela para o navio. Humilde, o autor diz que não concebia a capacidade que tem de prender o leitor. Foi descobrindo-a – depois do primeiro passo – a cada linha escrita: “Sempre tive com o que me surpreender. Tem surpresas quem sai à procura delas”.
Foto: Pozenato prepara O Candidato, O Cínico e O Território, títulos provisórios de seus próximos livros | Crédito: Maicon Damasceno/O Caxiense
Da 20ª edição impressa.
















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