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    por O Caxiense | 02/04/2010 às 8:34

    O Ju escapou do rebaixamento, mas faz a sua pior campanha da década no Gauchão

    O futebol é uma caixinha de surpresas. Sobre a veracidade deste dito popular não recai qualquer dúvida. Por isso ele é usado na abertura desta matéria. A surpresa, neste caso, será o Juventude superar o Grêmio, domingo, diante de sua torcida, interrompendo uma se-quência de 14 vitórias do Tricolor da Azenha, e ainda sonhar com vaga na fase seguinte do Campeonato Gaúcho de 2010. Mas para que isto ocorra, além de vencer, é preciso a combinação de resultados paralelos – e aí os deuses do futebol terão de jogar muito bem. O Juventude torce por tropeços do Ypiranga, que recebe o Inter de Santa Maria, e – pode acreditar – do Avenida, que joga contra o Porto Alegre, na Capital do Estado.
    Neste momento, depois da vexatória derrota para o Avenida, lanterna da competição, em Santa Cruz, por um a zero, tudo parece caminhar para a confirmação de um desempenho histórico negativo do alviverde em competições estaduais. Pelo menos na última década. Com apenas 12 pontos na soma dos 14 jogos disputados, fruto de duas vitórias e seis empates, o Juventude faz a sua pior campanha desde a conquista do Gauchão em 1998 e da Copa do Brasil no ano seguinte.
    Em toda a história da competição estadual o alviverde caxiense ostenta seis vice-campeonatos, em 1965, 1994, 1996, 2001, 2007 e 2008, além do título de 1998. Nos demais anos desta primeira década do milênio, o Juventude sempre se manteve dentre os oito melhores. Neste campeonato, se não houver surpresa alguma no domingo, o clube deverá encerrar sua participação na 13ª ou 14ª posição, ou seja, no limite do rebaixamento, já que os dois últimos da classificação geral estarão na Série B do Gauchão em 2011. Abaixo, hoje, estão Porto Alegre, Esportivo e Avenida, mas nenhum em condições de alcançar o Juventude.
    Mesmo vencendo e somando 15 pontos, ou 30% de aproveitamento nas 15 partidas das fases classificatórias, o Juventude ficará muito abaixo dos seus piores momentos desta década. A menor pontuação, considerando a participação desde o início da competição, é a de 2005, com 21 pontos e a 7ª colocação – repetida no ano passado, mas com 23 pontos.
    Na história de campeonatos gaúchos, registrada partir de 1919, o Juventude garantiu 22 colocações dentre os quatro primeiros. Foi 4º colocado em seis oportunidades, nove vezes chegou ao 3º lugar, seis em 2º e uma em 1º. Nesta temporada, com time formado essencialmente por jovens da base e alguns contratados, mas nenhum de grande nome no cenário nacional, a equipe faz sua pior campanha, digna de ser esquecida. Mas, como disse o presidente Milton Scola, este time foi formado com objetivo de garantir o clube na Série A do Gauchão. E cumpriu sua missão, embora a duras penas e deixando o torcedor receoso de que não pudesse chegar lá. Espera-se que, neste domingo, mostre ser capaz de fazer muito mais.

    Se houver a repetição do empenho e da dedicação dos treinos desta semana, o Juventude tem a chance de mostrar algo mais do que as melancólicas atuações de todo o Gauchão. O problema está em enfrentar o Grêmio, líder absoluto da competição, garantido na final, e que deve vir com força máxima.
    Se considerar os 172 jogos já realizados entre os dois times, a vantagem gremista é assombrosa. Nas 17 partidas disputadas pelas competições estaduais desde 2000, o Grêmio sustenta 10 vitórias contra três do Juventude e quatro empates. Nas seis vezes em que foi vice-campeão, o Juventude perdeu quatro para o Grêmio. As estatísticas e o momento atual inclinam para o lado gremista. Mas… o futebol é uma caixinha de surpresas.
    O vice-presidente de futebol do alviverde, Juarez Ártico, reconhece que desde o início do ano a diretoria tinha a convicção de que esta temporada não seria nada fácil. O Juventude foi o último clube a iniciar as atividades, formou um novo time em espaço de tempo muito curto e teve pouco mais de 15 dias de atividades antes da estreia. Situação semelhante ocorreu somente com a dupla Gre-Nal, embora esta tenha usado jogadores dos times B, em atividade desde o ano passado e atuando juntos há tempos.
    Para o dirigente, tecnicamente o atual grupo do Juventude não ficou muito abaixo dos demais. Ártico destaca que na maioria dos jogos houve a influência de fatores pontuais, como gol no início, expulsões ou pênaltis em momentos cruciais, e as lesões, tanto é que alguns jogadores contratados sequer puderam ser avaliados em jogos profissionais. Mas admite que num time formado, pronto para uma competição, possivelmente os resultados seriam outros. “O Juventude teve pouco tempo de preparação, padecemos de lesões dos novos contratados e o time não conseguiu atingir um padrão”, pondera.
    Esta combinação de fatores acabou se refletindo no desempenho atual. Para Ártico, que defendeu as cores alviverdes como jogador, um time pronto, ajustado, reagiria melhor à pressão. Um exemplo é o jogo contra o Avenida, em que o Juventude teve o lateral Luiz Felipe expulso aos 24 minutos do primeiro tempo. “Se o nosso time estivesse pronto, a reação certamente seria diferente. Mas, como ainda não atingimos um padrão, a pressão acaba se tornando um grande obstáculo.”

    Pressão que pode não ser sentida no jogo de domingo contra o Grêmio. Não há mais o perigo do rebaixamento e o time pode jogar mais solto, liberado. “Se perder, nada vai mudar. Se ganhar, terá a chance de seguir na competição. Desde o início do Estadual sempre tivemos que administrar a pressão vinda de todos os lados. Neste jogo estaremos livres dela e os jogadores poderão mostrar o seu verdadeiro futebol.”
    Embora a chance de classificação exista, o Juventude já tem uma programação definida para os próximos meses. A mais importante é montar e preparar um grupo em condições de fazer frente à Série C, que se inicia em julho, após a Copa do Mundo.
    O vice de futebol e o auxiliar técnico de Osmar Loss, o ex-zagueiro Piccoli, viajam pelo país na prospecção de atletas para montar o grupo que representará o Juventude na terceira divisão do Brasileiro, onde não há exibição pela televisão, tampouco auxílios da Confederação Brasileira de Futebol. É cada um por si. Para o Juventude, é uma experiência nova depois de 13 anos na Série A e dois na B.

    Independentemente do resultado de domingo, a diretoria já definiu a estratégia para a competição nacional. A primeira decisão é que o time ganhará reforços e a folha de pagamento do futebol profissional, atualmente na casa de R$ 150 mil mensais, será reajustada, encorpando-se algo como 40%, para perto de R$ 240 mil. Logicamente que, em função do controle financeiro, outros setores acabarão sofrendo os reflexos da tentativa de montar um time em condições de recolocar o clube na Série B – e de voltar a receber verbas de televisão e outros benefícios da CBF. “Para gastar mais no futebol teremos de mexer em outras áreas. O orçamento geral da instituição não pode ser extrapolado e isto tem sido motivo de discussão semanal no clube.”

    A direção, em conjunto com a comissão técnica, tem feito avaliações sistemáticas do grupo à disposição. De acordo com Ártico, a filosofia futura é fechar contratações com prazo de 18 meses, ou seja, até o final do ano de 2011. “Não dá para iniciar um ano sem grupo formado. É balela afirmar que o Gauchão deve servir como laboratório. Precisamos de elenco pronto para iniciar o Gauchão e, na sequência, o Brasileiro. Não dá para administrar uma situação como a deste ano, em que tivemos de formar e organizar um time em menos de um mês.”
    O grupo que Ártico pretende montar para a Série C terá como comandante o técnico Osmar Loss, embora uma parte da torcida defenda mudanças. Dos 14 contratados em 2010, seis ainda não tiveram a chance de mostrar o seu potencial, basicamente por problemas de lesão ou falta de oportunidade. Estes terão a chance nos amistosos que o clube realizará no período de quase 100 dias que antecederá a Série C. Neste meio tempo haverá muitos treinos e pré-temporada, algo que o Juventude não conseguiu fazer no início de ano. Pode até não ser a razão decisiva para o mau desempenho até aqui, mas que exerce influência, é inegável.
    Dos oito contratados e aproveitados por Loss, três devem ser dispensados, assim como alguns que vieram da temporada passada. A meta da direção é formar um grupo de 28 atletas.

    O trabalho de identificação de novos valores já se iniciou, porque o Juventude não pretende ficar apenas com a chamada “raspa de tacho”, aqueles dispensáveis para qualquer agremiação. Ártico destaca que a direção observa jogadores no interior de São Paulo, Santa Catarina, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul. Eles devem vir especialmente para o ataque e defesa. Por questão ética, o dirigente evita antecipar dispensas, mas jogadores como Marcos Denner, com proposta do Criciúma, e o goleiro Sílvio Luiz, contratado para ser titular que virou reserva de Carlão, não devem fazer parte do grupo que defenderá as cores alviverdes na Série C.

    Voltando ao Gauchão, o elenco atual tem a oportunidade neste domingo de mostrar que, apesar da pífia colocação, tem garra, empenho e hombridade. O resultado até não é o mais importante, porque o Juventude precisa contar com a sorte, e muita, para se classificar. O que a torcida espera é um time focado, motivado e preparado para quebrar escritas no Jaconi: a invencibilidade de 14 jogos do Grêmio neste ano, considerando Gauchão e Copa do Brasil, e o fato de o alviverde não vencer o tricolor no Jaconi desde 22 de fevereiro de 2002 (placar de 2 x 1, pelo Estadual). Além do que, se vencer, o Ju premiará dentre outros o vice de futebol, Juarez Ártico, que depois de muitos anos passa uma Páscoa em Caxias do Sul, abrindo mão da pescaria na praia. Também poderá retocar seu retrato diante do torcedor, como fizeram funcionários do clube, que nesta semana repintaram em amarelo e branco a sinalização para estacionamento dos ônibus que transportam os profissionais e os atletas da base.
    Para atrair a torcida, a direção montou duas promoções: quem comprar o ingresso usando a camisa alviverde paga R$ 20. Caso contrário, é R$ 40. Mulheres com a camisa do Ju têm ingresso liberado. E antes de a bola rolar haverá uma partida recreativa, além da caça ao ninho, com crianças de até 12 anos. Depois, o presente ficará por conta dos jogadores.

    Foto: O vice de futebol Juarez Ártico: “O Juventude teve pouco tempo de preparação, padecemos de lesões dos novos contratados e o time não conseguiu atingir um padrão”

    Da 18ª edição impressa

    Categoria: Esportes, Geral | Tags: caxias do sul,esporte,futebol,Gauchão,Impresso,Juventude

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