Números para pensar a Festa
por O Caxiense | 17/04/2010 às 11:54
Visitantes deram nota 8,9 à Festa da Uva 2010 – sinal de aprovação e indicativo para as próximas edições
Uma edição de muitos números, mas também muita discussão e uma análise profunda sobre o futuro da principal festa da cidade, que é também uma das maiores do país. A Comissão Comunitária divulgou na última quarta-feira (14) o balanço da Festa da Uva de 2010, que teve 849.010 visitantes – 9,42% a menos do que em 2008, quando recebeu 937.310 pessoas. Antes da Festa começar, a perspectiva era atingir público de 1 milhão. Faltaram quase 150 mil para chegar a essa marca, sendo que no cálculo final foram somados espectadores e participantes de toda a programação, desde as Olimpíadas Coloniais até os desfiles de carros alegóricos.
As explicações para esse resultado estão na data, no clima e até no cenário econômico. O diretor de Marketing da Comissão Comunitária, Júlio Duso, lembra que, enquanto a Festa de 2008 começou com tempo bom e em pleno feriado de Carnaval, a deste ano iniciou em meio a um friozinho fora de época e sem feriado no meio. O diretor de Captação de Recursos, Carlos Búrigo, acrescenta que a Festa precedeu um ano marcado por uma crise econômica, o que pode ter contribuído para o número de turistas ser menor.
Apesar disso, não houve prejuízos. A contabilidade do evento ainda não está fechada, mas tudo indica que o resultado será positivo. A Festa custou R$ 10.297.012,32 e arrecadou, até o momento, R$ 12.540.272,33. Além disso, falta entrar no caixa da empresa Festa da Uva S.A. R$ 574.000 em leis de incentivo à cultura e emendas parlamentares. Como foram feitos investimentos no parque no valor de R$ 2.766.068,49, o lucro financeiro, no final, deve ser de R$ 51.191,52.
>>> LEIA TAMBÉM: De grão em grão, a dimensão da Festa
Entre os números do balanço, saíram também dados positivos a respeito do público. Uma pesquisa realizada pela Faculdade da Serra Gaúcha (FSG) a pedido da Comissão Comunitária procurou traçar um perfil dos visitantes. Dos entrevistados, 23% tinham menos de 20 anos; 35%, entre 20 e 29 anos; 33%, entre 30 e 49 anos; e 9% mais de 50 anos. “Houve um incremento de 7,5% no número de jovens. E isso é muito bom”, avalia o presidente da Comissão Comunitária, Gelson Palavro.
Foram entrevistadas 1.540 pessoas aleatoriamente entre 18 de fevereiro e 7 de março. Desse total, 63,9% eram da cidade e 36,1% de outros municípios. A maior parte dos turistas de fora veio do Paraná, de São Paulo e de Minas Gerais.
Outra informação importante da pesquisa foi a avaliação feita pelas pessoas que foram aos Pavilhões e assistiram aos desfiles. Elas deram nota 8,9 para o evento. Para Palavro, essa classificação é um sinal de que a Festa está no caminho certo e de que o foco das equipes que trabalham nela deve estar na qualidade, e não tanto na quantidade de visitantes. “Sempre há coisas para serem melhoradas. Mas essa nota, no meu entendimento, é um sinal de que o modelo que temos hoje é o correto e precisa apenas ser aperfeiçoado.”
Quando Palavro fala em modelo, se refere ao jeito tradicional de fazer a Festa da Uva, herança ainda dos anos 50, quando surgiu o trinômio exposição-desfile-feira. O salto de qualidade dessa combinação viria, segundo ele, com o aperfeiçoamento de uma visão que desde 2006 se tornou quase uma obsessão das comissões que assumiram o evento: torná-lo cada vez mais festivo e multicultural.
Por isso que logo na entrada dos pavilhões foi montada a Estação do Abraço, onde os visitantes eram saudados calorosamente. Grupos de teatro espalhados pelo parque brincavam com os turistas e mais de 1 mil apresentações artísticas foram realizadas simultaneamente.
A gastronomia também ganhou atenção especial, item que deve ser reforçado ainda mais nas próximas edições. Segundo o levantamento da FSG, 90% dos visitantes gastaram com alimentação dentro do parque, sendo que grande parte do consumo ocorreu no Salão Paroquial, considerado um dos grandes acertos da Festa da Uva.
O espaço foi concebido na edição de 2008, mas ficava em um local provisório. Este ano, foi definitivamente construído junto às casas da Réplica de Caxias, onde havia diversas outras atrações gastronômicas típicas locais. “A receita do Salão Paroquial foi R$ 120 mil. Deu para pagar todo o investimento feito nele e ainda sobrou R$ 15 mil”, informa Palavro, apontando que na próxima edição o lugar deva ser ainda melhor aproveitado.
A distribuição e a venda de uva também foi um dos pontos altos desta Festa. Foram consumidas dentro dos pavilhões 227.086 toneladas da fruta, que além de ser entregue gratuitamente era comercializada em três diferentes locais do parque. Tinha até para quem queria só olhar: 357 produtores participaram da exposição de uvas, na entrada do Centro de Eventos.
De todos os aspectos, o mais polêmico – e também mais ousado – foi o desfile de carros alegóricos. Após a estreia do corso, o presidente da Comissão Comunitária deixou transparecer que não havia gostado do resultado. Chegou a determinar ajustes após as primeiras apresentações. Mas, no final, o público gostou. Deu nota 8,3.
Foi um corso diferente dos anteriores, com número de figurantes menor e a representação dos distritos diluída em meio às demais atrações. O objetivo foi criar uma linguagem única e uniforme, o que se concretizou. Além disso, o desfile seguiu uma lógica. Cada um dos 10 quadros se propôs a contar uma década da história de Caxias do Sul. Artistas e figurantes contavam por meio das coreografias e figurinos os fatos mais marcantes da cidade e a sua população.
“Os problemas que nós tivemos de queixas em relação ao desfile foram justamente naqueles quadros que tratavam da guerra, por exemplo, onde as pessoas desfilaram tristes. Mas acho que isso nos dá uma importante lição para os próximas edições. Devemos continuar buscando essa fidelidade histórica, porém cuidar um pouco mais do quesito alegria, porque, afinal, é isso que se busca em uma festa”, avalia Palavro.
O diretor de desfiles da Comissão Comunitária, vereador Vinicius De Tomasi Ribeiro, sabia que a mudança seria arriscada. Mas ele entende que era uma necessidade. “Nós profissionalizamos o desfile, demos um sentindo a ele, usamos elementos históricos, tivemos a participação de artistas. Foi uma inovação.”
O presidente da Comissão Comunitária não sabe prever se, no futuro, a Festa continuará existindo e se ela ainda será realizada no formato atual. Mas aposta que, pelo menos por um bom tempo, ela deverá seguir os passos das últimas edições.
O secretário municipal de Cultura e diretor cultural da Comissão Comunitária, Antonio Feldmann, entende que o evento ainda enfrenta um dilema que precisa ser resolvido. “Existe um debate sobre o que a Festa da Uva pode ser. O turista de fora gosta de vir aqui e ver a cultura italiana, suas músicas, sua comida, o vinho. Mas quem é daqui e não é italiano também quer se ver nessa comemoração.”
Feldmann diz que o processo de discussão sobre a identidade da Festa da Uva começou em 2006, quando foi escolhido como tema A Alegria de Estarmos Juntos. Mas acredita que ainda vai demorar um pouco até essa questão ser solucionada, pois, na opinião dele, ainda existe na cidade uma certa resistência em aceitar mudanças e o que vem de fora. “Espero que possamos um dia escolher como tema o aniversário da imigração alemã, por exemplo. Por que não? Caxias também tem descendentes de alemães, e essa é uma festa comunitária, por isso todo mundo que vive aqui acaba se sentindo meio dono dela”, diz o secretário.
Fisicamente, a Festa da Uva também deve mudar. Os Pavilhões permanecerão, é claro, exatamente onde estão. Mas necessitarão de alterações. Uma delas, talvez a principal no momento, diz respeito à temperatura nos espaços de exposições. A Comissão Comunitária já tentou diversas técnicas para reduzir o calor interno – de instalação de ventiladores a aberturas no teto –, sem resultado. “Acredito que o único jeito de resolver definitivamente o problema seja tirar todo o telhado e levantar a estrutura. Mas custa caro”, pondera Gelson Palavro.
Vinicius Ribeiro vai além. Ele defende a realização urgente de um plano de diretor para o parque. O assunto foi tema do trabalho de conclusão de curso em Arquitetura e Urbanismo do vereador e prevê a elaboração de um projeto abrangente que dê uma identidade visual única e harmônica para o lugar. “Os pavilhões foram inaugurados na Festa da Uva de 1975, quando foi celebrado o centenário da imigração italiana. De lá para cá, a cada edição é feita uma intervenção nova no lugar sem respeitar a identificação do parque”, reclama.
Vinicius diz que não é necessário demolir nada do que está feito, nem excluir atrações do lugar. Defende apenas um estudo para qualificar os espaços existentes para receber melhor os turistas.
A mudança deve se estender também aos desfiles, que poderão ser retirados do Centro. A possibilidade é discutida a cada edição há mais de uma década, mas nunca foi levada adiante. “O debate não é novo, mas vem ganhando mais força a cada ano. Por isso, acho que essa mudança, mais cedo ou mais tarde, acabará ocorrendo. Vai chegar uma hora em que ela será inevitável”, prevê Vinicius.
O estudo mais recente foi feito por ele mesmo, em 2008, quando também foi diretor de Desfiles. Na época, foram analisadas diversas alternativas. Uma delas foi a Via Vêneto (trecho da Perimetral Norte entre as ruas Ludovico Cavinatto e Moreira César), que acabou sendo descartada devido à importância que tem para o trânsito, principalmente durante a Festa da Uva.
“Um dos lugares com boas possibilidades é a Rua Professor Luiz Facchin, no bairro São José. É plana, reta, larga e bem localizada”, diz Vinicius, lembrando que suas características são muito parecidas com as da Via Vêneto. Ela fica quase perpendicular à Moreira César e desemboca na Ludovico Cavinatto. Porém, seu movimento é menor e não prejudicaria o trânsito.
Mas essa é uma discussão que ficará para a próxima Comissão Comunitária. A vantagem do grupo que assumir é que a diretoria atual deixará como modelo o planejamento feito para a edição de 2010. Nesse trabalho, iniciado na metade de 2009, está registrado cada passo da preparação do evento.
Quem orientou a documentação foi o administrador de empresas e consultor em planejamento estratégico e marketing Ivan Polidoro. “A pessoa que assumir, mesmo que não tenha experiência nenhuma em Festa da Uva, saberá exatamente o que fazer, porque teve uma pessoa antes dela que registrou cada etapa da função”, destaca.
Polidoro afirma que o planejamento elimina em quase 90% a improvisação, o que permite um salto de qualidade na realização da Festa. Mas faz um alerta: “Para um planejamento ser ideal e resultar em uma Festa da Uva excelente, o trabalho precisa começar logo Amanhã, se for possível.”
Foto: Contabilizando quem foi aos Pavilhões, assistiu ao desfile ou participou de outras atividades, a Festa somou 849.010 visitantes, 9,42% a menos do que em 2008 | Crédito: Luiz Chaves, Divulgação/O Caxiense
Da 20ª impressa.
















Deixe seu comentário: