Álbum de família
por O Caxiense | 10/05/2010 às 9:00
A história dos Tomazoni, unidos por um negócio de quase seis décadas e incontáveis imagens
O letreiro luminoso vermelho e azul da Tomazoni foi desligado no final do ano passado. Desde a década de 1980, quando o neon foi instalado no telhado do prédio de sete andares da família, no bairro de Lourdes, as palavras Kodak e Tomazoni podiam ser vistas de longe, piscando e iluminando as noites, as casas e os prédios vizinhos. Quando o principal administrador das lojas de fotografia, João Alberto Tomazoni, o Joni, faleceu, em março de 2009, não havia mais motivos para que o letreiro ficasse ligado. Era o que faltava para o negócio, que já não ia bem, fechar as portas, poucos meses antes da data em que completaria 60 anos de existência.
Quando tinha 12 anos, Maria Lúcia Tomazoni adorava passar as tardes fotografando as amigas no Parque Monteiro Lobato (próximo ao colégio Emílio Meyer), no bairro Exposição, com uma câmera de filme em rolo, que fazia até 12 poses. Presente do pai, o fotógrafo Clemente Tomazoni. Maria Lúcia é uma das poucas adultas, hoje na faixa dos 60 anos, que possuem muitas fotos do tempo de infância. “Eu e o Joni, principalmente, que éramos os filhos mais velhos, sempre tivemos acesso às câmeras, o pai sempre foi muito de deixar a gente usar”, conta Maria Lúcia, que hoje, em vez de fotografar as amigas com uma pequena câmera analógica, tira fotos digitais dos netos. “Mas sinto falta de abrir álbuns e manusear as fotografias.”
Maria Lúcia considera a fotografia algo extremamente sentimental. “Quando a gente olha para uma foto antiga é como se a gente revivesse, como se um filme passasse na cabeça. A foto sempre diz alguma coisa”, explica. Revelando emoções, a imagem que fica, diziam os slogans da Tomazoni.
O valor que Maria Lúcia atribui à fotografia certamente é herança de Clemente, que aos 15 anos, ao trabalhar com um irmão, em Erechim, descobriu que a foto faria parte de sua vida. Na época, o garoto que nada entendia do ramo aprendeu a profissão da forma mais eficiente que existe: na prática. Fazia fotos de estúdio, eventos sociais, clubes e até para a polícia e funerais. “Meu pai já fotografou morto, mas não aqui em Caxias, era mais nas colônias que solicitavam isso”, conta a outra filha, Maria Cristina. Em maio de 1950, já casado há cinco anos com Odila Suzin e conhecido pelo nome comercial de C. Tomazoni, Clemente veio para Caxias e abriu seu próprio estúdio ao lado do tradicional Clube Juvenil. No Natal de 1958, saiu do aluguel e mudou-se para uma casa na Rua Sinimbu, na época uma rua pacata, onde hoje fica uma loja de emoldurações, ao lado do prédio da Tomazoni. Além de vender produtos fotográficos, a loja era conhecida pelas fotos de indústrias e pelas fotos sociais feitas por Clemente, que também registrava jogos de futebol – o que ele chamava de “reportagens”.
Sérgio Mazzochi entrou na Tomazoni em 1971 e de lá só saiu no fechamento da empresa, em 2009. Iniciou como aprendiz, assim como Clemente, e foi acompanhando todas as etapas da fotografia. “Desde a bacia até o digital”, diz ele, fascinado com os processos químicos, elétricos, óticos e digitais pelos quais a foto passou ao longo do tempo.
No início dos anos 70, a passagem do preto e branco para o colorido foi, de acordo com Sérgio, o que mudou o modo de fazer fotografia para sempre. “Foi aí que começaram as revelações para amador. Antes, existia revelação no preto e branco, mas era muito pouco. O preto e branco era mais simples, dois banhos no máximo. E o colorido era técnica alemã, demorava uma semana para chegar à fotografia final, pois eram 14 banhos para revelar o filme e depois vinha o processo do papel. Era muito artesanal”, explica Sérgio.
Tamanha foi a transformação que a Tomazoni, no início chamada Laboratório Fototécnico Reunidos, depois Laboratório Fototécnico Tomazoni, mudou de nome, para Tomazoni Laboratório Fotográfico a Cores. Era ainda administrada por Clemente, junto com Sérgio, um sobrinho, Antônio, e o filho mais velho, Joni.
Em 1975, aos 15 anos, a irmã mais nova de Joni, Maria Cristina, entrou no negócio da família. Atendia clientes e retocava fotografias – na época, intervenções para tirar pequenas sujeiras das fotos eram feitas com tintas específicas, nada parecido com os retoques digitais de hoje. Logo ela começou a fotografar: “Passava as sextas e os sábados dentro de um estúdio fotografando. Naquela época, por incrível que pareça, faziam fila para bater foto dos filhos. Era hábito, nos sábados, pegar os filhos, bater fotografias e fazer pôsteres. Era uma coisa tradicional. Não se marcava horário, era por chegada. Parecia uma fila de vacinação”.
Sérgio e Maria Cristina se conhecerem na Tomazoni e, anos depois, casaram-se. Até hoje moram no prédio da família. Juntos, relembram um momento importante da Tomazoni: a parceria com a com a norte-americana Kodak, que quando entrou no mercado, por volta de 1975, ajudou a popularizar a fotografia, até então elitizada. “Eram câmeras fáceis e baratas, como hoje o celular, que todo mundo tinha. A Kodak foi um show. E fez com que a revelação ficasse mais rápida, trouxe equipamentos automatizados, que propiciavam alta produção. Dos anos 70 para 75 houve uma evolução muito grande da fotografia. E de 75 para os anos 80 houve um pulo grandioso, com muita gente fotografando”, conta Sérgio.
Como a Tomazoni foi a primeira a trabalhar com a Kodak no Estado, e foi sua única revendedora autorizada por muitos anos, a marca dava suporte à empresa caxiense, cedendo materiais, cursos e até o letreiro de neon. Com o impulso da Kodak, a Tomazoni passou a ter muito mais serviço e parou de fazer as “reportagens” – que exigiam que os sócios fotografassem nos finais de semana. “Parar com isso foi uma baita besteira que fizemos na época. Olha hoje, qual é a loja de fotografia que faz o social, formaturas e casamentos, que não tem seu próprio laboratório? O negócio da fotografia está todo junto, é o inverso do que nós pensávamos. Se nós tivéssemos continuado, estaríamos como as grandes lojas de fotografia estão hoje”, explica Sérgio, que fala do sogro como se fosse um pai. “Era um negócio familiar e, enquanto o Clemente era vivo, para mim era muito bom. Ele não deixava que as divergências acontecessem. Era uma pessoa muito otimista, positiva, tinha visão de futuro das coisas, acreditava nas pessoas e dava oportunidade, sabia em quem apostar. E era uma pessoa simples, não tinha muito estudo. Eu gostava muito dele. Ele era a mola propulsora.”
Em 1979 a Tomazoni abriu a primeira filial, na Galeria Jotacê, na Júlio de Castilhos. Neste mesmo ano, Maria Lúcia começou a trabalhar na Tomazoni. Fazia o que mais gostava e atendia ao público. “Alguns clientes iam buscar as fotos e contavam a vida para nós. Eu ficava pasma, ouvindo, e criava um vínculo muito grande com eles”. Ela lembra de uma cliente que costumava viajar muito para a Europa e, na hora de retirar as fotos reveladas, contava tudo sobre a viagem. “Viajei tanto, mas nunca saí da loja”, brinca Maria Lúcia.
Nos anos seguintes novas filiais da Tomazoni abriram, inclusive em outras cidades, como Novo Hamburgo, Farroupilha e Bento Gonçalves. A empresa chegou a ter oito lojas abertas.
Clemente morreu em 1990, deixando a administração para Joni e sua esposa, Odessa Toss, e as irmãs dele, Maria Lúcia e Maria Cristina. Na passagem para os anos 2000, a chegada da fotografia digital começou a abalar a empresa, que já enfrentava problemas internos desde a morte do fundador. “A grande frustração da fotografia digital é que não mandam revelar. Hoje se tem imagem, não a foto. Ela está no computador. Antigamente tinha-se a fotografia, porque tinha que passar para o papel para saber se saiu de olho fechado”, diz Sérgio. Mesmo assim, ele afirma que o momento atual é o melhor da fotografia, pois com a tecnologia digital se produz fotos em grande escala e em alta qualidade. A Tomazoni contratou profissionais que já dominavam as novas técnicas: “Foi na Tomazoni que eu decidi que queria fotografar”, conta o fotógrafo Silas Abreu. Na loja de Lourdes e sob supervisão de Joni, ele trabalhou durante três anos, fazendo revelação e edição de imagens no computador. “Eu aprendi muito lá. Tive contato com fotógrafos e com outros tipos de trabalho de fotografia, como de casamento. A gente editava e tratava as imagens de fotógrafos de casamento do Brasil inteiro, e fotógrafos grandes”, completa Silas, hoje dono de um estúdio.
A Tomazoni tentou, mas as lojas não conseguiram superar financeiramente a queda provocada pela fotografia digital. O custo operacional ficou alto diante de um lucro muito pequeno. “Trabalhamos no vermelho alguns anos. Lembro que em abril de 2000 houve uma queda de 50% nos números, que nunca mais subiram. E ter apenas 50% do faturamento do que se imaginava, em questão de um ano se fica no vermelho e não se sai mais”, afirma Maria Cristina. “Houve um enxugamento geral da empresa. Tivemos também diversos roubos, perda de equipamentos valiosos, problemas trabalhistas com funcionários. Esses fatores também nos abateram. Assim como a concorrência”, complementa Sérgio.
Maria Cristina e Maria Lúcia saíram da empresa, deixando apenas Sérgio, Joni e Odessa na administração. “A sensação foi muito triste. Foi uma perda, uma coisa que meu pai começou, a gente deu a vida praticamente para que continuasse e teve que terminar. Quando começou a história do computador, o Joni já dizia que a foto ia morrer, sabíamos que mais dia menos dia iria acabar”, relata Maria Lúcia. “Nós começamos a ficar velhos, não vieram ideias novas e gente nova”, analisa Sérgio.
Os dois filhos de Odessa e Joni não quiseram levar adiante o empreendimento, assim como os de Maria Lúcia. Às vésperas do Natal de 2009, com dívidas de impostos acumuladas, a Tomazoni fechou para as festas de fim de ano e nunca mais abriu. A morte de Joni, meses antes, convencera Odessa entender que não seria possível continuar sem ele, ainda mais com os problemas que a empresa vinha enfrentando.
Na sala do apartamento de Odessa há apenas fotos de Joni. Sempre sorrindo e com o bigode escuro que o caracterizava, Joni aparece exibindo grandes peixes, trazidos das pescarias com os amigos. “Ele sempre dizia que se a fotografia não fosse a profissão, seria o hobby. O hobby era a pesca, embora ele não gostasse de comer peixe. Nunca vou entender isso”, conta Odessa.
Por dois longos anos, ela cuidou do marido em sua luta contra o câncer. Aos poucos, Joni teve que ir se desligando da administração da Tomazoni. Odessa ficou viúva em 18 de março de 2009, cinco dias antes do aniversário do marido, que faria 60 anos. “A alma da Tomazoni era ele”, resume.
Odessa testemunhou o envolvimento de Joni com a fotografia desde que os dois eram namorados. À noite, ela o ajudava no estúdio, para que não tivesse que trabalhar sozinho. “Ele fotografava e trabalhava nos laboratórios. Era o relações públicas, fazia compras, mantinha relações com fornecedores e, nos finais de semana, fazia ‘reportagens’”, relembra. “Ele tinha um entusiasmo muito grande com isso. Era como o pai, no espírito empreendedor e em valorizar as pessoas. E nasceu com o espírito da fotografia. Porque o pai dele sempre fotografou e o Joni sempre circulou por lá. Até mesmo quando ainda estava na barriga da mãe, que ajudava na revelação. Ele dava muita força para quem manifestava vontade de entrar no ramo”, diz Odessa, contando que foi Joni quem incentivou Clemente a colocar o processo de revelação colorida na década de 1970.
Odessa diz que restam ainda muitas fotos de clientes da Tomazoni que nunca foram retirá-las. De vez em quando ela liga para alguns telefones, para ver se alguém pode ir buscar as fotos. Por enquanto, estão todas guardadas. Alguém chegou a sugerir que ela fizesse como as lavanderias, que vendem as peças que não são buscadas. Mas Odessa logo respondeu que não há como fazer isso, vender algo tão pessoal como uma foto.
A fotografia na família Tomazoni era mais do que uma fonte de renda. Era uma paixão, que envolveu de uma forma ou outra todos os seus membros. Com a falência da empresa, o que mais dói hoje em seus antigos sócios é a falta do contato com a fotografia, e não tanto a renda que ela gerava. “Algumas pessoas não entendiam, mas comíamos e dormíamos fotografia. Aquilo era tão normal para nós”, explica Maria Lúcia.
“Fotografar é colocar na mesma linha de mira a cabeça, o olho e o coração”, disse o célebre fotógrafo francês Henri Cartier-Bresson. Seja no tapete antigo, com a inscrição “Studio Tomazoni”, esticado até hoje no hall do prédio da família, seja nas fotos de um sorridente Joni espalhadas pela sala de Odessa ou no grosso álbum com recortes montado para o aniversário de 50 anos da empresa, fica a memória de que a Tomazoni soube, pelo tempo em que resistiu, alinhar a cabeça, o olho e o coração.
No ponto onde ficava a matriz, na Rua Sinimbu, abrirá dentro de alguns meses uma outra loja de fotografia, de São Paulo. Uma outra empresa, com uma outra história.
Foto: O letreiro instalado sobre o prédio da família, onde ficava a matriz, em Lourdes, teve suas luzes apagadas no fim de 2009 | Crédito: Maicon Damasceno/O Caxiense
Da 23ª edição impressa
















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