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    Locatelli redescoberto

    por O Caxiense | 28/05/2010 às 9:31

    50 anos depois da inauguração da Via-Sacra, testemunhos revelam como o pintor italiano, que se fotografava nas posições de Cristo, criou uma de suas obras mais complexas e admiradas | por RODRIGO LOPES

    Dia 21 de fevereiro, primeiro domingo da Festa Nacional da Uva 2010. No interior da Igreja São Pelegrino, parada obrigatória de turistas durante o evento, dezenas de visitantes registram fotos dos murais espalhados pelo teto, laterais e nave central. O arquiteto carioca Vagner Mendes Jr., 42 anos, é um dos que entram no templo pela primeira vez, a convite de amigos caxienses. Circula entre o altar, o fac-símile do Santo Sudário, as portas de bronze, o vestíbulo e a réplica da Pietá. Próximo à Estação 11 da Via-Sacra, Mendes observa o lado esquerdo da tela, bem abaixo, em letras quase imperceptíveis: Aldo Locatelli, 1960. “Faz meio século que pintaram, né?”

    É. Pode parecer ironia, mas o aniversário de 50 anos de um dos mais importantes conjuntos artísticos do pintor italiano no Rio Grande do Sul foi lembrado por um turista do Rio de Janeiro, que não permaneceu mais do que meia hora no templo. E a data deve passar em branco por aqui neste final de semana, quando se completam exatas cinco décadas de exposição pública em Caxias. Pelo menos até a última sexta-feira, nenhum evento oficial estava previsto para celebrar o cinquentenário da obra-prima de Locatelli, como o próprio se referia às 14 telas pintadas durante os anos de 1958, 1959 e 1960 em Porto Alegre.
    A ausência de uma placa e um certo desconhecimento da própria direção da paróquia sobre a solenidade de estreia podem ter contribuído para esse silêncio involuntário. Nem o atual pároco, padre Mario Pedrotti, nem a coordenação da Sociedade de Cultura e Arte Aldo Locatelli (Scala), entidade filantrópica ligada à paróquia, atentaram para o calendário. Foi durante o trabalho de apuração dos dados para esta reportagem que a inauguração das pinturas da Via-Sacra despertou o interesse de várias pessoas ligadas à igreja. A partir daí, a história ganhou novos contornos, impulsionou pesquisas e revelou algumas surpresas.
    As 14 estações foram oficialmente entregues à Paróquia de São Pelegrino durante uma pomposa solenidade às 15h do dia 22 de maio de 1960. A opção de realizá-la no meio da tarde, contrariando os horários vigentes das missas, buscava obedecer à hora original do início do trajeto percorrido por Cristo durante a Via-Crúcis, do Pretório de Pilatos ao Monte Calvário.
    A cerimônia em São Pelegrino, conduzida pelo arcebispo de Florianópolis, Dom Felício César da Cunha Vasconcelos – que estava na cidade devido a uma novena em homenagem a Nossa Senhora de Caravaggio –, contou com as presenças do próprio Aldo Locatelli – que morava em Porto Alegre desde 1954 e subiu a Serra acompanhado da esposa, Mercedes Biancheri –, do bispo auxiliar de Caxias do Sul, Dom Cândido Maria Bampi, e dos padres auxiliares Waldomiro Minella, Ruy Bosa e Sidney Zanettini. Todos sob a supervisão detalhista do pároco Eugênio Giordani (1910- 1985), mentor absoluto da construção do templo e do trabalho artístico desenvolvido pelo pintor italiano no interior da igreja desde 1951. “Padre Giordani fazia questão de coordenar tudo o que dizia respeito às pinturas. E a Via-Sacra era a menina dos olhos dele”, recorda Minella, 76 anos.
    Já afixados nas paredes do templo e protegidos por um pano escuro, os 14 quadros aguardavam havia quase uma semana pelos olhares do público. E que público. Fiéis de vários bairros da cidade, autoridades eclesiásticas, políticos, empresários, músicos, fotógrafos, jornalistas, freiras, irmãos, famílias da alta sociedade caxiense, jovens, crianças e toda sorte de curiosos lotaram a igreja para acompanhar a inauguração. Uma mobilização poucas vezes vista na paróquia em um domingo.

    A cada tela descerrada, o arcebispo fazia uma espécie de meditação contemplativa defronte à pintura – pode-se dizer que Vasconcelos rezou sua primeira Via-Sacra tendo como motivação devocional uma obra de arte. Ao fundo, no mezanino, um coral de cerca de 40 vozes entoava os cânticos em latim então obrigatórios nas celebrações. Alvino Melquides Brugalli tinha 29 anos em 1960 e era um dos integrantes desse grupo de cantores, que trazia na ponta da língua hinos como o Kirye, Glória, Credo, Sanctus, Bendictus e Agnus Dei.
    Escritor e hoje 1º secretário da sociedade Scala, Brugalli não recorda detalhes específicos da cerimônia, mas após o contato d´O Caxiense foi o principal responsável por coletar nos arquivos paroquiais informações preciosas sobre a inauguração. “A data teria passado em branco se vocês não tivessem buscado essa história”, disse à reportagem.
    A partir da ampla cobertura realizada pela imprensa da época, Brugalli compilou diversos registros dos jornais Correio do Povo, Folha da Tarde e Correio Riograndense, além de outros periódicos não identificados. Naquele final de maio e início de junho de 1960, espoucaram matérias, artigos e notas generosas detalhando a inauguração, o “fenomenal trabalho artístico” do italiano e a presença de personalidades locais no evento. Passaram por lá a Rainha da Festa Nacional de Uva de 1958, Zila Turra, o então prefeito Armando Biazus e os 14 paraninfos que auxiliaram no custeio das estações. Aliás, cada um desses patrocinadores (fossem casais, irmãos ou viúvas) acompanhava o descerramento da respectiva tela paga.
    Obedecendo à ordem (e aos registros paroquiais), a Estação 1, Condenado, foi oferecida por Ítalo Corsetti e Sra.; a Estação 2, Cruz e Vilipêndios, pela viúva Rosa Paulina Guidali Andreazza; a Estação 3, Queda – Pegadas de Sangue no Caminho da Dor, por Genuína Corso e filhos; a Estação 4, Encontro com a Mãe, por Dante Paternoster e Sra.; a Estação 5, O Homem Bondoso, por Jacó Gregoleto e Sra.; a Estação 6, Verônica, por Domingos Bianco e Sra., João Bianco e Sra. e Egídio Bianco e Sra.; a Estação 7, Queda, por Antonio Marchet e Sra.; a Estação 8, Encontro com as Piedosas Mulheres, por Ana Azevedo Maggi; a Estação 9, Queda, por Orestes Baldisseroto e Sra. Adélia Casanova; a Estação 10, Despojado de Suas Roupas, por Victório Cesa e Sra.; a Estação 11, Pregado na Cruz, por Dorvalino Galiotto e Sra.; a Estação 12, Crucificado, por Waldemar De Zorzi e Sra.; a Estação 13, Mãe Dolorosa, por Francisco Marchetto e Sra.; e, finalmente, a Estação 14, O Sepulcro, oferecida pela viúva Maria Gregoletto.

    Todo esse frenesi equivaleu ao êxito obtido por Locatelli cerca de um mês antes, quando mostrou as 14 telas primeiramente em Porto Alegre. A exposição na capital foi uma espécie de teste para conferir a reação do público, já que o pintor não se sentia seguro quanto ao conteúdo das obras. Mais do que isso, Locatelli tinha receio de que o realismo dramático das telas chocasse os fiéis de uma cidade do interior. O vernissage, ocorrido no espaço Mata-Borrão, junto ao Pavilhão do Serviço Estadual de Turismo (Setur), ocorreu em 3 de abril de 1960 e diluiu esse temor. Nas duas semanas que se seguiram, a mostra foi um retumbante sucesso. “A boa receptividade e os elogios da crítica deixaram Aldo confiante para levar as obras para Caxias do Sul”, lembra o professor de História da Arte Círio Simon, 74 anos, que a pedido de O Caxiense disponibilizou em seu blog (www.profciriosimon.blogspot.com) um artigo sobre os 50 anos da Via-Sacra.
    Simon conheceu Locatelli no verão de 1958, aos 22 anos, quando o italiano estava pintando o mural do 8º andar do prédio do Instituto de Belas Artes do Rio Grande do Sul (IBA-RS), hoje Instituto de Artes da UFRGS, em Porto Alegre. “Numa manhã quente de janeiro daquele ano, ainda um candidato do vestibular, fui ver a obra do Locatelli e encontrei-o banhado em tintas. Como eu estava com uma garrafa de refrigerante na mão, ele disparou: ‘Juventude Coca-Cola, quando vocês vão me ajudar?’”.

    Foi um bom presságio. Simon passou no vestibular daquele ano e logo teve Locatelli como professor de Arte Decorativa. “Na condição de seus alunos, ele insistia para que fôssemos acompanhar sua produção”, recorda. Posto isso, o jovem estudante de arte rapidamente passou a frequentar o ateliê do pintor, na Rua Dario Pederneiras, 513, bairro Petrópolis. O local era uma espécie de cubo, que recebia apenas iluminação zenital e usava as paredes como único suporte para as imensas telas de 2m50cm por 1m80cm da Via-Sacra. Ali, recorda Simon, Locatelli produziu também os murais para o Banco Auxiliar de São Paulo e o mural Fundação de Porto Alegre, em exposição na Fiergs.
    O ex-aluno de Locatelli conta que o ateliê também era lugar de peregrinação. As visitas costumavam passar pela cozinha de Dona Mercedes, esposa e responsável pela iguaria predileta do pintor: galeto em diversos pratos e com os mais variados temperos. Mas o ambiente de trabalho era totalmente insalubre. Estava localizado no fundo da inclinação, para onde escorria toda umidade do terreno, lembra o professor. “Além de inalar constantemente o cheiro de produtos químicos usados nas tintas, ele ainda consumia duas ou três carteiras de ‘mata-rato’ por dia. Acendia um cigarro no outro”, completa Simon, relacionando esse conjunto de fatores ao avanço do câncer de pulmão que vitimou o pintor em 3 de setembro de 1962, aos 47 anos. “Numa dessas visitas, fiquei intrigado com uma série de pinturas viradas para a parede. Diante da minha curiosidade, ele foi mostrando, uma a uma, as estações da Via-Sacra e fazendo comentários. Revelou que incluíra nas telas sua própria pessoa e alguns daqueles que lhe eram mais próximos”, relata Simon.

    Uma das pessoas mais próximas, nesse caso, era a filha Cristiana. Com sete anos em 1960, ela foi retratada na Estação 8, Encontro com as Piedosas Mulheres. O quadro é o primeiro à direita, logo na entrada da igreja, e, segundo o sociólogo e escritor Luiz Ernesto Brambatti, foi o último a ser pintado por Locatelli. Também é o único em que a figura de Cristo não aparece. Em seu lugar destaca-se uma menina oferecendo um pote de água a quem o observa. Autor do livro Locatelli no Brasil, publicado pela editora caxiense Belas-Letras em 2008, Brambatti explica que a omissão foi intencional. “Trata-se de um quadro que apresenta aos sedentos de paz, de justiça e de Deus a água da vida. E vem através das mãos de uma criança, simbolizando a pureza de coração.” Já o próprio Locatelli serviu como modelo para a figura de Simão Cirineu, auxiliando Jesus a carregar a cruz, na Estação 5.
    Servir de molde e deixar-se fotografar nas mesmas posições de Cristo, aliás, era uma prática recorrente do pintor durante a feitura da Via-Sacra. Duas dessas fotografias mostram, respectivamente, Locatelli estendido no chão de ladrilhos, simulando segurar a cruz (foto de capa desta edição), e ajoelhado, com o peso dela nas costas. Outra fonte para a composição eram os estudos, esboços que auxiliavam a definir o que seria transposto para as telas. Tudo isso para conferir o realismo ímpar exigido pelo padre Giordani na encomenda dos trabalhos. O paróco determinou ainda que Locatelli seguisse os preceitos científicos contidos no livro A Paixão de Jesus Cristo Segundo o Cirurgião, do francês Pierre Barbet (médico do Hospital Saint Joseph, de Paris), publicado no Brasil em 1954. Na obra, segundo Brambatti, estão 40 anos de estudos sobre a crucificação de Cristo e o Santo Sudário – vem daí a minúcia verificada nos cortes, ferimentos e no flagelo de Cristo.

    Conforme Brambatti revela em seu livro, “como Locatelli pintou os quadros da Via-Sacra em diversas épocas, de 1958 a 1960, eles não seguiam a lógica objetiva das 14 estações. Locatelli não quis reproduzir as sequências tradicionais, quis criar formas próprias, incorporando elementos modernos à imagem, como o sapato (quadro 3), a lata de café (quadro 6) e uma vassoura (quadro 9)”. Outro ponto destacado pelo pesquisador são as cores. “Prevalece uma cor violácea, em tons de azul, de roxo e de cinza, nada semelhante às coloridas figuras do teto e da Santa Ceia ou às tradicionais figuras coloridas das Vias-Sacras conhecidas. Locatelli conseguiu dar um semblante de névoa úmida à sua obra, como se naquela sexta-feira o dia fosse realmente cinzento. São quadros com pouca luz. Como se a energia estivesse se esvaindo”, comparou no livro.
    Com relação às vestimentas, o pesquisador cita o cirurgião: “Barbet afirma que Jesus estava nu ao ser crucificado, pois tratava-se de um costume romano. No entanto, nenhum artista ousou representar essa nudez de Jesus na cruz, por respeito, decência e estética. Todos preferiram considerar uma tanga, mais ou menos longa e artisticamente arranjada. Locatelli não fugiu à regra. Em todos os quadros, Cristo é pintado com um pano em volta da cintura. Também não encontramos auréolas ao redor da cabeça. A leitura de Barbet propiciou-lhe entender que estava se tratando de um homem crucificado e, portanto, precisava representá-lo como homem”.

    Todo esse preciosismo de Locatelli, porém, não resistiu à passagem do tempo. Em 12 de novembro de 2002, a Igreja deu início ao processo de restauração das 14 estações, que vinham sofrendo há anos com infiltrações na parede, rachaduras e a ação de fungos. Também foram contempladas as pinturas murais e a limpeza do mármore que reveste as paredes internas. O trabalho estendeu-se por quase dois anos e foi conduzido pela Scala, responsável também pela implantação da Casa de Memória São Pelegrino. O local abriga atualmente todo o acervo do templo, incluindo documentos sobre a história da construção, o envolvimento comunitário, a atuação do padre Eugênio Giordani, os 10 anos em que Aldo Locatelli trabalhou nas pinturas e a evolução do bairro São Pelegrino.
    Falando em acervo, graças a esta reportagem um documento precioso e até então desconhecido pela igreja acabou chegando às mãos do 1º secretário da Scala, Alvino Brugalli, na última terça-feira (18): três rolos de filme em formato 16 milímetros com as inscrições “Inauguração da Via-Sacra de São Pelegrino”. Os dois primeiros, erroneamente identificados, continham cenas de diversas atividades do padre Giordani na comunidade em meados dos anos 60, quando completou o jubileu de prata de ordenação. Mas o terceiro rolo não decepcionou: estavam lá, praticamente intactas, as imagens de toda a celebração de descerramento das telas, conforme a descrição acima. O material, carente de informações técnicas sobre quem filmou e editou, foi reproduzido e digitalizado na produtora Spaghetti Filmes e será anexado ao acervo da Casa de Memória São Pelegrino, juntamente com os originais.
    Brugalli não revelou onde o filme esteve repousando nos últimos 50 anos, mas vibrou a cada imagem projetada no escurinho do estúdio, como se voltasse no tempo. Comemorava a descoberta de um tesouro sobre a inauguração da Via-Sacra que ajudará a recolocá-la em lugar de destaque na memória dos caxienses. Para nunca mais ser esquecida.

    Foto: Locatelli em foto na posição de Cristo | Crédito: Silas Abreu, Reprodução/O Caxiense

    Da 36ª edição impressa. De 22 a 28 de maio de 2010.

    Publicado às 09h31 de 28 de maio de 2010.

    Categoria: Geral, Impresso | Tags: aldo locatelli,Cultura,Impresso,são pelegrino

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    Comentários

    • Grazi
      29 de May de 2010 às 17:39

      Esperei toda a semana pra ler esse texto (todo o dia dava uma espiada pra ver se ele estava no site), mas valeu a pena. Muito bom! Quando chegar em Caxias, lerei novamente, dessa vez na versão impressa, com muito prazer.

    • ocaxiense.com.br
      2 de June de 2011 às 21:15

      Locatelli redescoberto.. WTF? :)

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