“Tudo valeu muito a pena”
por O Caxiense | 10/05/2010 às 9:00
Ídolo da torcida e papo de coração, Lauro avalia a proposta da direção para abandonar o futebol e tentar ajudar o clube de outra maneira
Em 1998, sentado nas sociais do Estádio Alfredo Jaconi, Lauro concedeu entrevistas porque estava sendo emprestado pela Parmalat, patrocinadora do Juventude, ao Palmeiras. Não sabia quanto tempo iria ficar, ou se a partir de São Paulo teria outro rumo. Foi a primeira vez que ele saiu do Juventude. Retornou, foi para o Etti-Jundiaí (hoje Paulista) e de lá para o Grêmio, passou pela Ulbra (atual Universidade) e, desde 2004, veste a camisa alviverde novamente. A mesma pela qual seu filho, João Pedro, quatro anos, a mulher, Manuela, 28 anos, e a sogra, Sueli – mais conhecida pelos amigos como Neca –, torcem apaixonadamente. Passados 12 anos, as entrevistas também são em tom de despedida, mas Lauro sabe que, desta vez, não voltará a atuar pelo Ju. Pelo menos não dentro das quatro linhas.
Na semana passada a direção apresentou uma proposta para o ídolo papo se tornar um auxiliar técnico ou, ainda, trabalhar junto ao departamento de marketing, como uma espécie de garoto-propaganda do clube que lhe abriu as portas no distante ano de 1990. “Quando se é guri se faz cada coisa… Viajei a São Paulo e outras cidades do Rio Grande do Sul para fazer testes. O seu Adão Pereira, que treinou o Flamenguinho de Alegrete e depois trabalhou no Ju, foi quem me trouxe para Caxias do Sul. Nem fiz teste, cheguei e comecei a jogar”, orgulha-se em contar. Lauro Antônio Ferreira da Silva, 36 anos, é uma pessoa sincera. O mesmo Lauro que conversou com jornalistas sentado tranquilamente na sombra da arquibancada do Jaconi no final da década passada abre a porta de sua casa hoje, próximo de completar 37 anos (em 20 de junho), para mostrar o quanto é feliz.
Quando chegou em Caxias, começou na categoria Juvenil. Treinou forte, mostrou empenho e foi para os Juniores. Em 1994, logo em janeiro, participou da Copa São Paulo de Futebol Júnior. Ao lado de companheiros como o goleiro Humberto (hoje treinador de goleiros das categorias de base do alviverde), do volante Itaqui e do zagueiro Baggio, levou o Juventude ao 5º lugar, feito inédito para um time até então desconhecido, que estreava na Copinha. O treinador era José Luiz Plein. Devido ao desempenho na competição, a maioria dos jogadores imediatamente foi promovida ao profissional. No final daquele mesmo ano, numa tarde ensolarada de domingo (4 de dezembro), o Ju sagrou-se campeão da Série B diante do Goiás. “Foi quando nosso futebol apareceu para o Brasil”, lembra Lauro.
Ao retornar para Caxias do Sul depois de atuar pelo Palmeiras, o Baixinho, natural de Alegrete, ergueu outra taça, a de Campeão Gaúcho invicto, em 1998. No ano seguinte foi a vez da Copa do Brasil, o maior título conquistado pelo Ju, que lhe garantiu a participação na Copa Libertadores de 2000. Além desses títulos, Lauro foi campeão do Mercosul pelo Palmeiras (1998) e, com o Etti-Jundiaí, em 2001, campeão da Série A2 (segunda divisão) do Paulistão e da Série C do Brasileiro. “Deus usou o Juventude para me abençoar. Sei que tudo o que tenho hoje eu devo ao Juventude. Minha casa, minha carreira e, principalmente, minha família, pois conheci minha esposa em Caxias do Sul e meu filho nasceu aqui”, diz o Baixinho, olhando para o horizonte na sala de casa enquanto saboreia o chimarrão.
Lauro se considera uma pessoa feliz, com a bênção de Deus. “Foi também após ter vindo para o Juventude que conheci a palavra do Senhor. Não gosto muito de falar em religião, até para me preservar. A Bíblia é meu manual de conduta”, resume o volante que tornou-se evangélico em 1995. Tudo é creditado a Deus, inclusive a experiência em outros clubes do país. “Eu fui, apesar de não gostar muito de mudanças. Ganhei experiência. Não tenho como separar o Ju da minha vida. Tive alegrias no passado e derrotas mais recentemente; tudo valeu”, constata, tecendo um elogio ao amigo Marcelo Costa, meia do Caxias formado nas categorias de base do Jaconi e eleito craque do Gauchão 2010, em votação promovida pela Federação Gaúcha de Futebol (FGF).
A experiência citada pelo Baixinho e, acima de tudo, seu empenho dentro de campo e seu caráter fizeram com que fosse abençoado também pelas arquibancadas. Poucos sabem falar com a torcida como o ídolo que já vestiu 570 vezes a camisa do clube fundado em 1913. “O cidadão Lauro foi criado pelo Juventude. Tenho plena consciência de que a papada fez o Lauro. Eu joguei muitas vezes empurrado pela torcida. É por isso que eu jogo, por um ideal. Foram os juventudistas que fizeram a maior propaganda do jogador Lauro”, agradece. Poucos atletas são elogiados ou cobrados respeitosamente em público como o pai do João Pedro.
Enquanto dá atenção ao filho e à esposa e aguarda o horário do culto, Lauro respira fundo, esfrega a mão no rosto e pensa. Até sexta-feira (7), não havia tomado uma decisão sobre a proposta da direção. E nunca pensou que seria tão difícil. “Mas é bom saber que o Juventude me quer. Sei que o clube não está virando as costas para o Lauro. Chegaria uma hora em que eu deveria parar de jogar. Digo para a torcida que não tenho mágoa, mas sim felicidade por todas as vezes que vesti e honrei a camisa. Acho até melhor parar agora, lembrado por todos, do que acabar no esquecimento. Por outro lado, tenho amor pelo jogo, sei que poderia jogar mais algum tempo. Enfim, não é tão simples quanto parece decidir”, contextualiza o jogador.
Enquanto abraça o filho, Lauro para e diz, calmo como nas entrevistas de 1998, que a turbulência já passou. “Estou com a cabeça tranquila para decidir.” A turbulência a que o Baixinho se refere ocorreu na semana retrasada. A reapresentação do grupo profissional estava marcada para 26 de abril, visando ao início dos trabalhos para a disputa da Série C a partir de 18 de julho (a Confederação Brasileira de Futebol deve divulgar a tabela e o regulamento da competição até o final de maio), e Lauro não apareceu no Jaconi. Segundo o vice-presidente de futebol, Juarez Ártico, o jogador com contrato até novembro de 2010 fora liberado para tratar de assuntos particulares – mais especificamente, do curso de Educação Física que faz na Faculdade da Serra Gaúcha (FSG).
Como o assunto vazou, e para evitar mal-entendidos, a direção divulgou no final da manhã de 29 de abril uma nota oficial sobre as negociações encaminhadas com Lauro. No mesmo dia, por volta das 18h15 e depois de uma reunião com Ártico e com os assessores do departamento de futebol, Juarez Marcarini, e da presidência do Ju, Raimundo Demore, o Baixinho concedeu uma entrevista coletiva. Cabisbaixo e abatido, Lauro falou que iria pensar com carinho na oferta. “Nossa intenção é ter o Lauro junto do Juventude, as portas estão abertas. Talvez façamos um jogo de despedida. É um projeto novo, não como jogador”, diz Ártico, reforçando o convite.
Com o passar dos dias, Lauro diz que “esfriou a cabeça” e, com a ajuda de Deus e da família, está avaliando as possibilidades. “O clube não me deu um prazo, porém, não gosto de ficar postergando decisões. E também não quero me precipitar. Como disse antes, não é fácil, mas creio que terei a serenidade necessária para finalizar a questão”, pondera. O anúncio da direção alviverde dividiu a torcida e até funcionários do clube. Enquanto parte agradece e elogia o empenho do atleta Lauro nos cerca de 17 anos de Jaconi, outros acham que houve falta de respeito em convidar o jogador a se aposentar. Diz a nota assinada pelo presidente Milton Scola: “A direção alviverde, em momento algum, tratou o assunto com a intenção de desqualificar a representatividade daquele que é considerado um ídolo e participante ativo nas principais conquistas do clube e exemplo de profissional comprometido com a causa esmeraldina. Ou seja, é fundamental que o torcedor do Juventude saiba que em momento algum a diretoria deixou de considerar a contribuição de Lauro e sua trajetória no clube.”
O primeiro momento de indefinição na carreira de Lauro no Ju ocorreu no final do ano passado. Com contrato finalizado em novembro, ele aguardou uma proposta da direção recém-eleita. O valor do salário foi reduzido, devido ao déficit nos cofres do Jaconi, e o Baixinho renovou até novembro de 2010. Como sempre fez, chegou cedo aos treinos, cumpriu horários, suou a camisa.
A saída de Lauro do campo também deixará um vácuo na imprensa. Preferido para dar entrevistas, sempre falou bem, ponderadamente. Tanto nas horas boas quanto nas ruins. Foi assim no rebaixamento do ano passado. O Baixinho se apresentava para dar explicações. “Estamos tentando recolocar o clube nos trilhos. Particularmente, fico triste com isso porque sempre atuei em equipes vencedoras aqui no Juventude”, diz, ao comentar a fraca atuação da equipe no Campeonato Gaúcho de 2010.
Para Lauro, o nervosismo é a principal dificuldade para quem vive de jogar futebol. E o mesmo vale fora do gramado. Hoje ele ressalta ser capaz de pensar assim devido à experiência de vida, devido ao Juventude. As articuladas entrevistas no Estádio Alfredo Jaconi poderão se repetir, caso ele aceite o convite da direção esmeraldina e siga no clube, em outras funções. Trata-se de decisão que não deve tardar. “O que posso dizer é que tudo valeu muito a pena”, declara o Baixinho. Em tom de despedida?
Foto: Lauro diz que a turbulência já passou: “Estou com a cabeça tranquila para decidir” | Crédito: Maicon Damasceno/O Caxiense
Da 23ª edição impressa
















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